segunda-feira, 11 de março de 2013

La Dame de la Guerre

Christine Anarchie nasceu numa tarde chuvosa em 6 de março de 1995, num pequeno hospital não-identificado em Porto Alegre. Seus berros histéricos após a primeira golfada de ar denotavam desde já a vontade de ser ouvida. Não há muitos dados sobre a sua infância. Aos 11 anos, foi matriculada no Ateneu. Foi lá aonde sabores como a dor, a humilhação e o ódio, antes inéditos no seu cardápio rotineiro, tornaram-se seu feijão com arroz diário. E por um curto período inicial de tempo, a pequena Christine engoliu este prato como quem engole brasa quente sem reclamar. Porém, aos 13 anos, o assalto hormonal da sua primeira menstruação lhe roubou sua paciência e sua tahamul - a capacidade de suportar. E o sangue de sua menarca misturou-se ao sangue de seus carrascos.

O processo criminal contra a pré-adolescente foi assunto das notícias por muito tempo. Foi jogada em um reformatório. Fugiu na noite do primeiro dia. Aderiu ao grupo de centenas de crianças moradoras de rua. Nesse meio, sua única amizade eram os cães vira-latas, e desse relacionamento entre espécies vieram seus ideais ecológicos. Destes, veio o veganismo desenfreado. Deste, la violence.


Aos 14 anos, juntou-se ao seu primeiro grupo ecoterrorista com muita animosidade. Entretanto, logo se decepcionou com as atividades curriculares deste: abrir grades de canis com alicates, pichar muros e quebrar as janelas de restaurantes fast-food? Isto não traria a atenção do grande público para a sua mensagem, pois aos olhos da mídia eles não passavam de vândalos. Decepcionada e determinada a realmente elevar a causa a níveis internacionais, ela se desligou do grupo e começou a agir solo. Conseguiu seu primeiro grande sucesso de audiência alguns meses depois, ao invadir uma fábrica de salsichas de uma companhia alimentar muito conhecida e adicionar fezes infectadas aos misturadores de carne. Dentro de uma gaveta da escrivaninha do diretor da fábrica, deixou um bilhete com as palavras "Bandine Capone esteve aqui."

A contaminação massiva que seguiu o incidente foi o suficiente para o seu novo pseudônimo ser citado na reportagem do jornal local.

Esta momentânea fama foi o currículo perfeito para a agora conhecida como Bandine ser aceita na organização ecoterrorista mais proeminente do Brasil, a ALFACE (Aliança Libertária da Força Animal Contra os Ecopoluidores). Sua facilidade em adquirir conhecimentos químicos avançados fez dela uma exímia bombardeira, responsável pela destruição de dúzias de sedes farmacêuticas para companhias que faziam testes em animais. Não tardou em ascender para líder da Aliança e em levar seus atos extremistas ao reconhecimento internacional.


Agora com os recursos e popularidade desejados, Capone contatou dezenas de organizações ecológicas extremistas com uma proposta revolucionária. Assim se formou a CIEB, Coalizão Internacional de Ecologia Bélica. Ela finalmente estava realizando o objetivo que tivera desde o início: declarar guerra aos destruidores do planeta. Sob seu comando, a CIEB realizou inúmeros atentados contra qualquer organização que em seus métodos ameaçasse o bem-estar natural. Seu nome logo encabeçava a lista dos 10 mais procurados do FBI e da Interpol. E tudo isto antes de completar 18 anos.


E então chegamos ao ponto mais recente desta recapitulação: às 21h da quarta-feira, no seu aniversário que marcava a passagem para a maioridade, Bandine invadiu o Teatro St. Judas, no centro da sua cidade-natal, e fez de reféns a platéia e os atores da peça que estava sendo apresentada. Entre o elenco encontrava-se o proprietário do local e astro da apresentação, o artista de renome internacional Lord Fafa, e seu colega de trabalho não menos famoso, Mordecai de Flaudepan. Capone os manteve sentados no palco sob a mira de sua automática enquanto comandava a operação. Sua justificativa para a invasão foi de que o teatro havia sido construído sobre um antigo parque que deveria ter sido considerado patrimônio municipal. Após 4 horas de negociação com a polícia, um helicóptero adornado com a sigla da CIEB resgatou os terroristas e escapou para a sua base de operações, até agora tentando ser achada por especialistas de rastreamento, sem sucesso.


Mordecai de Flaudepan preferiu não se pronunciar frente aos repórteres, como é usual de sua conduta pública. Já Lord Fafa, conhecido por suas atitudes mais que polêmicas, declarou que nutria certa admiração pela ecoterrorista. Quando questionado, isto foi o que o artista teve a dizer:

- "Nas horas que passamos lá como reféns, tive a oportunidade de conversar com a minha captora. Ela não hesitou em expressar seu desprezo em relação a mim, por causa da construção do St. Judas. Disse que achava compreensível, e que de certa forma admirava a obstinação dela para com seus ideais. Não considero apropriadas as maneiras de que ela se utiliza para propagar suas ideias, mas é no mínimo impressionante a maneira com que esta dama bélica, esta dame de la guerre, se dedica às causas em que acredita."

- texto originalmente escrito como cartão de aniversário para a minha colega literária Bruna Christine, dona do http://vidasamargas.wordpress.com/