Eu gritei “CALA A BOCA” e a minha voz saiu como nunca tinha
saído antes. E eu percebi nesse momento uma parcela de toda a força que se
escondia dentro de mim, a mesma força que existia atrás das palavras “nunca” e “eu
te amo”. E por um segundo espacial eu tava perdido na realidade, porque eu
nunca pensei que uma coisa daquelas poderia sair de mim. Aquilo não era da
natureza que eu me atribuía, que os outros me atribuíam. Só descobri nesse
instante todo o poder que as minhas palavras possuíam, só aos 15 anos. Eu lembro como eu era um impotente antes
disso, como eu me sentia completamente patético aos 14 anos. Porque eu me
odiava, eu me repugnava. Eu era fraco, e eu me sentia fraco, ao mesmo tempo que
os outros à minha volta descobriam a sua própria força naquela época (eu
demorei mais, porque por ser adiantado, eu sempre fui atrasado). Por isso eu
também era inferior. Eu era baixo, eu não tinha barba, nem músculos, nem a voz
de um homem. Isso. O que eu mais odiava em mim era a minha voz. Primeiro por
influência externa, depois por teimosia minha. Eu só queria o que todo mundo
queria, eu queria ter força, eu queria ser forte. De tal forma que as palavras
nascidas do meu âmago fossem um soco no estômago dos outros, de tal forma que
elas não fossem outra repetição não entusiástica de uma fórmula humana. De tal
forma que eu não me sentisse mais um lixo humano. Porque essa parecia ser a
minha sina, e eu nunca conseguiria deixar de ser um medíocre com uma vida
medíocre. Mas isso não passava de uma mentira, e de um produto da necessidade
alheia de te fazer se sentir inútil. Porque se isso fosse verdade, eu não sentiria
esse fluxo nos meus pulmões; esse tambor tribal no meu peito; essa vibração no
meu estômago vazio; esse pulsão na minha virilha. Eu tinha vida dentro de mim,
e enquanto isso fosse verdade eu jamais poderia estar preso ao destino de um
fracasso. Eu gritei pra que o mundo se calasse e nisso eu descobri o rugido de
um trovão no meu núcleo. Mas ainda não me livrei completamente do vício da
derrota. Há vezes em que o mundo parece morto, e eu me sinto morto, e eu me
sinto vazio. Mas isso não passa de um intervalo da minha continuidade. Eu não
quero e não vou me permitir viver em tempos mortos, não sabendo que essa
pulsação existe em mim. Eu não sou e não devo ser nada abaixo da soma dos meus
desejos ao mundo.
(E eu NUNCA vou deixar vocês tirarem isso de mim. Eu preferiria morrer.)
Não posso deixar todo esse conhecimento se erodir com o vento. Eu preciso lembrar, sempre. Lembrar e sentir, sentir com a mesma força atrás das palavras “nunca” e “eu te amo”, e todas as outras infinitas palavras que se guardam em mim, ou que me guardam nelas. Lembra do teu trovão, Mordecai.
(E eu NUNCA vou deixar vocês tirarem isso de mim. Eu preferiria morrer.)
Não posso deixar todo esse conhecimento se erodir com o vento. Eu preciso lembrar, sempre. Lembrar e sentir, sentir com a mesma força atrás das palavras “nunca” e “eu te amo”, e todas as outras infinitas palavras que se guardam em mim, ou que me guardam nelas. Lembra do teu trovão, Mordecai.
