quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

recalque

Nada mais desagradável do que observar indiretamente as demonstrações alheias de romance e constatar que tu jamais sentiu aquelas coisas. Ou se sentiu, não consegue recapturar o sentimento, nem para se lembrar. Ou se sentiu, não foi mútuo. Ou se sentiu, não podia sentir. Mas ah, quem liga para essas firulas apaixonadas? É tudo encenação; amam pelo status! Preencher a minha lacuna existencial com a caricatura bem desenhada de outro? Fraqueza.

Fraqueza que eu tenho.

Fraqueza não correspondida.

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

Fly me to the moon

Me leve até a lua e deixe-me observar todas as formigas de lá. Tudo bem, se tu tiveres saudade podemos caronar num cometa qualquer de volta para casa. O que me surpreende é a tua disposição fogarenta de falar nessas coisas voluptuosas enquanto o olho de Deus nos observa escrevendo aqui. No final das contas tu é tu e eu sou tudo isto que vejo e sinto. Pois é isso mesmo, não é? Não sou apenas o meu corpo e o que está confinado em minha mente. Sou tu, sou os outros, sou as estrelas, sou os excrementos e sou os dragões. E apesar dos prazeres vividos e das dores sofridas, ainda conheço tão pouco desse meu eu-universo. É por isto que vim aqui contigo, minha extensão libidinosa. Vamos nadavoar até Júpiter. Depois, até Mercúrio. E depois até todos os outros planetas, até o aposentado do Plutão. E não faça essas lágrimas de gude comido, Xitão. Conheço as tuas táticas perniciosas. Se continuarmos neste vai-e-vem nas coisas conhecidas, a Morte virá até nós com apenas desprezo no olhos…

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

Eu, escarradeira do diabo

Quando tu passar pelo poço da vergonha
Olhe para baixo, rei!
Vês aquela criatura macilenta, contorcida e medonha?
Essa besta sou eu! Como sempre fui e como sempre serei.

Ela, reduzida ao pó que tu pisas,
Sou eu, criança transfigurada em rato de esgoto
Ela, negada da compaixão que mais precisas,
Sou eu, adornado em manto puído e roto
Ela, transformada de broto verdejante a toco podre e funguento
Sou eu, ser odiável e odiado
Ela, que teve o ego destruído e mutilado
Sou eu, aqui e agora lhe torturando com o meu lamento

Então tire logo essa venda dos olhos para ver o meu tormento!
Sou isso mesmo que tu vê

Eu Fui a criança que tu humilhou
Eu Sou o adolescente que tu destrói
Eu Serei o adulto que tu crucificarás
O carpete pisoteado que ninguém amou

E não importa se sempre arranco um pedaço de mim
Toda vez que ganho sua maldita aprovação
Não importa o quanto dói, não é fácil assim
Na tua mente superior ainda sou uma abominação
Pois bem, que assim seja!
Abraçarei a minha maldição
E quero que tu vejas!
Veja! Veja! VEJA!

Quero ser a bosta sob seu sapato
E a pomba que defeca sobre ti
Quero ser pra ti um fracassado nato
E um vendedor de misérias
Que na calada da noite se embebeda com a própria melancolia
Quero ser a caricatura caçoada ao tentar ser séria
Sem morfina, sem folia
Quero ser tudo aquilo que tu despreza e mais um pouco
Quero ser o seu eterno bobo-da-corte
Que quando se rebelar será visto como louco
E entre a humilhação e a tortura, escolherá a morte
Deitado em caixão de papelão e cremado com álcool de cozinha
E com uma lembrança póstuma não de mártir, mas de triste pateta
Para mim não haverá luto, sequer uma lágrimazinha
E futuras gerações me verão como uma seta para o que não ser

Pois prefiro tudo isto
E todo o fogo do inferno, meu senhor
A participar do seu chiqueiro moral por todos bem-visto
Essa hipocrisia cafajeste, essa sociopatia doente
Na perspectiva de alimentar esses vermes psíquicos, prefiro a dor
Pois a casca dura feita por suas pedras protege a minha mente
Ouviste bem, carrasco!
Em sua tentativa doentia de me "consertar"
Tu apenas selaste o meu defeito elementar

E fez da minha essência o teu asco.

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

Eu vi A Morte hoje, e ela era um passarinho morto no chão.
Eu vi A Miséria hoje, e ela era uma garotinha indígena cantando por comida na rua.
Eu vi A Injustiça hoje, e ela era uma criança tímida sendo humilhada por ser diferente.
Eu vi A Violência hoje, e ela era um mendigo sendo espancado por dois covardes.
Eu vi A Fome hoje, e ela era um cachorro de rua me encarando com melancolia nos olhos.

Mas o pior de tudo, eu fui A Impotência hoje,
Incapaz de mudar esse mundo cinza que me envolve e me engolfa.