terça-feira, 21 de agosto de 2012

O cor-de-caramelo foi adotado

  Por uma vizinha que se mudou pra um apartamento. Acho que às vezes a melancolia vem com gotas de ouro.

Amor de Marujo

Há algo de misterioso no mar para mim
Uma atração que não é bem violenta
Mas mais calma, quieta, graciosa
Até mesmo no terror da tormenta
Algo que não se pode colocar em prosa

Não sei se é essa vastidão quase infinita
Ou a sua profundidade, tão assustadora
Talvez seja pelo palco que ele uma vez já fora
Berço da vida, sua invenção mais bonita

Sei que quando criança, no mar eu me sentia rei
Senhor daquele feudo gargantuoso e turquesa.
Agora, na selva urbana
Não passo de rato, nunca mais alteza.
Apesar disso, jamais me esquecerei
Daquela aura magnética que o gigante azul emana.

E, mesmo depois do passar dos anos
Há vezes que ainda quero me atirar na água
Me lavar do mundano e do sujo
Declarar meu amor ao oceano
Meu amor de marujo.

domingo, 12 de agosto de 2012

Odium

Há uma besta no meu âmago
Sanguinária, desumana e feroz
Ela acaba de ser despertada
E ninguém pode escapar da sua fome atroz

Porém, se ela for libertada
A tragédia cairá sobre as cabeças
Daqueles que silenciaram a minha voz
E não há nada que a impeça
A não ser eu.

Nas profundas entranhas do meu coração
Ela se esconde, crescendo com meu ódio
Mas eu agarro e escondo essa aberração
E suas garras dilaceram o meu interior

É tão covarde, tão horrível e feio
Mas sigo o dia aguentando essa dor
Para salvar aqueles que odeio.

domingo, 5 de agosto de 2012


Grief

  Na minha rua, tinham esses dois cachorros vira-latas que vieram pra cá faz uns meses.  Um deles era miúdo e cor-de-caramelo, e o outro era atarracado, com o pelo cor preto meio sujo. No geral, eu era meio indiferente a eles, mas os achava fofinhos. Quase sempre que eu saía, eles vinham latir pra mim. Eu me irritava um pouco com isso. Nas últimas vezes, porém, eu deixei eles me cheirarem, pra ver se ao menos me reconheciam e paravam de ficar ladrando. Eles dormiam na grama que ficava na frente na casa da vizinha. Eles sempre andavam juntos. Talvez os dois tenham sido abandonados pelo mesmo dono. O fato é que, anteontem, um deles foi atropelado e morreu. Foi o pretinho. Eu fiquei sabendo ontem. Não fiquei muito triste nem nada, mas penso um pouco no outro. Eles eram tão companheiros, e eu fico imaginando como o cor-de-caramelo tá se sentindo agora. O pretinho foi enterrado na mesma árvore que a minha antiga cadela está agora. Minha mãe diz que não viu o miúdo hoje. Talvez ele tenha ido embora pra sempre. Talvez ele volte. Acho cruel a maneira que a vida tratou eles. Eu só espero que ele consiga ser feliz de novo, que talvez ache um outro amigo. Espero que, pra onde quer que os cães vão quando morrem, eles se reencontrem lá. Espero que eles recebam a chance de felicidade que eles mereciam ter aqui. Queria deixar um sinal de respeito aqui, por mais medíocre que seja.


R.I.P.
Pretinho
e todos os outros animais 
a quem a justiça deu as costas.