terça-feira, 25 de abril de 2017

Sobre fumar em casa

Acendo outro cigarro
Logo após apagar o primeiro
Pois só consigo existir em relação a algum outro
Não aprendi a ser sozinho, em quietude
Ao mesmo tempo criei ranço
De gastar boca e ouvido
Nos meus momentos de absoluta sovinhez
Em conversas de queijo suíço
E de fazer amigos por garantia
Não quero me tornar aquele
Que conversa com outro simplesmente
Para ter um diálogo consigo mesmo
Por isso tropeço e caio
No vão agonizante
Entre o diluir-se em outros
E o mergulhar em si próprio
Lá faço o meu ninho
Pois ainda me apavoro com a liberdade
Também chamada de
Plena solitude.

Pelas Calças

Eu tenho nojo de parnasianos
Porque são a elite da poesia
Representando tudo o que esmagou
Os que pintavam com a lama

Eu não confio naqueles
Que conseguem se desnudar
Sem um segundo de hesitação

Eu odeio:
Majestades trajadas de mantos fétidos
Hienas que comem o que “é só carniça”
E narcisos que me pedem pra ficar em frente ao sol

E admito que as vezes tenho repulsa pela humanidade inteira
E logo em seguida por mim mesmo
Por ser esse protótipo de rebelde
Que nunca pensou antes de fazer, porque não fazia
Que ia de encontro apenas com o próprio reflexo


Que nunca fechou o punho
Em outras ocasiões além dos momentos
Nos quais usava todas as forças do meu corpo
Pra não deixar que o sumo amargo
Que preenche tudo em mim
Vazasse pelas minhas calças.

Por uma arfada de ar fresco

Acho que estou sempre tomado pela ânsia
De agarrar o tudo antes que ele me escape
Por isso a água me fascina e me agoniza
Quando escorre por entre meus dedos
E talvez por isso eu goste de fumar
E ter a fumaça dentro de mim antes dela
Escapar da minha boca e se dissolver no ar
Também ando muito rápido indo para bares
Louco para chegar a tempo de ouvir a piada
Que vai ser relembrada e rida meses após o fato
Ou a briga entre amigos que vai gerar um silêncio sufocante
Por isso sou escravo do tempo
Que corre a minha volta e me profere ofensas
E nunca precisa parar para tomar fôlego
Sempre sentindo o futuro gotejando na minha nuca
E esfregando meus olhos enquanto persigo uma decisão
Por isso por vezes só posso parar e deitar
E deixar o mundo seguir seu redemoinho ao meu redor
Porque tem vezes que a gente só cansa.

Após a Ressaca

Em meio a brisas do passado,
Lembrei de criaturas como tu
Que ainda se fazem pássaros dentro de mar abissal
(Ninguém nunca lhe ensinou a nadar
E riam de ti quando tu batia os braços na água desesperado)
Porque eu também me afogava assim,
Com uma ardência anestesiada por dentro

Talvez se a gente virasse peixe
Afinal com essa sensação no estômago
De um anzol puxando as tripas
Todas as vezes que balbuciamos com alguém
Faria sentido, não?

Foi tudo uns tropeços disfarçados de sapateado
E aquele murro toda vez que corríamos pra alguém
E tentávamos vomitar tudo
e recebíamos de volta um
“não entendi.”

E as piadas, e as mordidas,
E os olhares, e os assédios,
E as vezes que a gente queria cantar,
E riam da nossa voz,
E a gente costurava a garganta.

Mas sou mais velho que tu,
Já aprendi a nadar
Então quero lhe fornecer estas arfadas:
Tu vai pensar que teus sentimentos são falsos,
Mas isso não existe.
Presta atenção na tua pele,
Em como ela reage ao vento de cada dia.

Um dia vai chegar
Quando tu também estiver envolto
Nessas brisas do passado,
E tu vai descobrir um amargo perfeito
Que vai te locomover pra sempre
E ninguém nunca vai tirar ele de ti

E tu vai aprender a respeitar a tua sujeira
E descobrir a dor de ter sido mutilado
E descobrir o júbilo
De ter sido plenamente errado.

terça-feira, 23 de setembro de 2014

Sobre flores e segredos

Posso estar terrivelmente enganado, mas suponho que tu exales talvez um ar orquidiano. A orquídea, de certa forma, é a planta mais agradável para se adotar como a tua predileta. Ela é convencionalmente bela, mas também tem o poder de manter em si ares exóticos. Em conversas reservadas, todas as abelhas ponderam entre si quais segredos obscuros a orquídea deve guardar no correr da sua seiva. Suspeito que, se ela pudesse mover-se e articular palavras, se manteria sempre instrospectivíssima, assim como tu. Também desconfio que, se algum dia todos os seus mistérios escorressem de si, por um corte desajeitado porém certeiro do botânico, os habitantes do jardim forjariam um cerne exasperado em coletivo, enquanto que por dentro exclamariam “mas era isso?”. Ou então verdadeiramente se surpreenderiam, mas ao cabo de alguns dias estariam novamente absortos em suas fofocas cotidianas sobre pólens e pétalas. Francamente, não posso prometer-te a certeza de que minha resposta seria diferente. Entretanto, te perguntaria minhas perguntas por quiçá algo além da vã curiosidade, por uma vontade de te conhecer mesmo. A orquídea provavelmente retém questionamentos simples, o que não a faz menos ampla. Pois é o seu aroma que a torna fascinante. Sua aura é absolutamente limpa.

Mas agora devo te perguntar: achas tu que as orquídeas cruzam com lírios?

segunda-feira, 23 de junho de 2014

Às distrações

A sombra do suicídio anda pairando sobre a minha cabeça nos últimos tempos.
Não sei o que fazer.
Uma parte minha achou, ingenuamente, que as coisas haviam mudado, que tudo agora seria luz e futuro.
Não, isso é mentira. Eu não fui estúpido.
Mas acho que eu realmente pensei que tinha saído do pântano.
Não, porque o pântano mora no meu coração vazio.
E eu caí em outro buraco, e me entreguei a outra paixão icárica, e virei a cabeça para longe da responsabilidade para com a minha própria vida.
Para com a minha própria felicidade.
Agora tô afogando no pântano de novo.
Meu corpo é coberto de chagas.
Meu futuro é invisível.
Sou imprestável.
Não faço nada mais.
Não escrevo, não faço planos, não me exercito.
Confiei naquelas cápsulas verde-com-branco, depois azul-com-branco, depois comprimidos, pra resolver tudo.
E não resolvi nada de novo.
E estou aqui de novo.
E, de novo, parece que a única saída plausível é pegar a pistola na gaveta do meu pai e meter uma bala no meio dos meus miolos.
E, de novo, sei que nunca vou conseguir fazer isso.
Só me resta o arrasto agora.
E as pequenas distrações.

quarta-feira, 2 de abril de 2014

Empurrei

Aperto as mãos torço os dedos prendo a respiração tudo por uma angústia louca de não ter feito certo, de não ter sido agradável interessante instigante o suficiente, quero sempre buscar uma absolução que nunca vem, e então me torno um bicho abissal gemendo se contorcendo peidando morrendo pulando e correndo, temendo a verdade de quem eu sou. Sou inconstante demais, ora quero me enterrar no chão e dormir pra sempre, ora quero ser de tudo e de todos. Mas sou os dois. E sendo os dois, não posso ser nenhum. Quero morrer. Quero viver. Quero sobreviver. Quero nada, pois é a mesma coisa que querer tudo. E por isso não posso jamais ter a minha própria unidade. E então grito.  Mas só sou assim porque preciso das pessoas. Até mesmo escrevendo esta patética tentativa de desabafarte imagino se um outro me apreciaria ao lê-la. Porque eu sou os outros. Eu não sei em que ponto eu deixei de ser eu e virei os outros. Mas viver pelos outros não é viver. É parasitar, é juntar migalhas de existência e fazer uma farofa pobre e estranha, nem um miserável pode se alimentar dela. Porra, já tô me exaustando escrevendo isto. Tudo me cansa. Mas eu não quero mais ficar empacando, tendo burstos milisegundais pra depois deitar no abismo de novo. Não, eu quero jorrar. Quero sempre jorrar. Mas eu não consigo. E por isso eu não consigo achar valor em mim mesmo. Não consigo nem mesmo me propôr um tema, alguma identidade que for. Esse desabafarte já é outro. E logo será outro de novo. Ser mutável é um inferno, mas eu sou um mutável escasso ainda, fazer um pra mim me dá o cansaço de fazer dez.

Eu nunca soube o que fazer.

Eu não sei nem se tudo isso esparramado aqui é verdade. Em algum plano tem que ser, mas é uma verdade muito dentra, é como uma miragem. Não sei se o que sinto são miragens ou gritos abafados. Mas pelo menos eu fiz algo com isso. É um consolo.

Porque eu nunca tenho vitórias, só consolos.