terça-feira, 25 de abril de 2017

Após a Ressaca

Em meio a brisas do passado,
Lembrei de criaturas como tu
Que ainda se fazem pássaros dentro de mar abissal
(Ninguém nunca lhe ensinou a nadar
E riam de ti quando tu batia os braços na água desesperado)
Porque eu também me afogava assim,
Com uma ardência anestesiada por dentro

Talvez se a gente virasse peixe
Afinal com essa sensação no estômago
De um anzol puxando as tripas
Todas as vezes que balbuciamos com alguém
Faria sentido, não?

Foi tudo uns tropeços disfarçados de sapateado
E aquele murro toda vez que corríamos pra alguém
E tentávamos vomitar tudo
e recebíamos de volta um
“não entendi.”

E as piadas, e as mordidas,
E os olhares, e os assédios,
E as vezes que a gente queria cantar,
E riam da nossa voz,
E a gente costurava a garganta.

Mas sou mais velho que tu,
Já aprendi a nadar
Então quero lhe fornecer estas arfadas:
Tu vai pensar que teus sentimentos são falsos,
Mas isso não existe.
Presta atenção na tua pele,
Em como ela reage ao vento de cada dia.

Um dia vai chegar
Quando tu também estiver envolto
Nessas brisas do passado,
E tu vai descobrir um amargo perfeito
Que vai te locomover pra sempre
E ninguém nunca vai tirar ele de ti

E tu vai aprender a respeitar a tua sujeira
E descobrir a dor de ter sido mutilado
E descobrir o júbilo
De ter sido plenamente errado.

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