segunda-feira, 30 de julho de 2012

A Dama





  Foi na penumbra da minha alma que a sua luz me deslumbrou. Seus cabelos eram vermelhos e rutilantes como o fogo, e sua tez alva como o manto da virgem. Seu corpo nu se desenrolava em formas curvas e voluptuosas, como que formando uma paisagem montanhosa coberta pela brancura da neve. Seus olhos semi-cerrados eram azuis como o céu. Expressavam tal graça que eu poderia deitar e esperar serenamente pelo ceifador sob aquele olhar.
  Tremendo, eu me aproximei do portal. Dali, eu podia ouvir sua respiração lenta e graciosa, e sentir o aroma de favos de mel e gengibre que o aposento exalava. Oh, se ela pudesse ao menos notar a minha presença!
  Nervoso, pigarreei e me apresentei formalmente. Ela não mexeu um músculo. Falei de novo, mais alto. Novamente, a moça se manteve imóvel. Desesperado, comecei a gritar, clamando pela sua atenção; mas foi como o som de mil sirenes no vácuo do nada. De repente, o som de passos ao longe.
  Eles estavam voltando.
  Assustado, agarrei a moldura do portal e, com todas as minhas forças, tentei atravessar a passagem para aquele outro mundo, como um homem infeliz que, apoiando-se no balaústre da desgraça, se joga no tempestuoso mar da insanidade. Mas foi em vão. Nesse momento, os seguranças chegaram e me detiveram. Fui drogado e arrastado de volta para o meu quarto. Em minha cela mental, eu fui informado que o quadro fora removido do corredor. Nunca mais vi a dama do retrato.

quarta-feira, 25 de julho de 2012

H

Eu me pico
Pra esquecer
Que eu me pico.


Eu me pico
Pra esquecer
Que eu me vendo
Pra me picar.


Eu me pico
Pra esquecer
Que a primeira vez
Que eu me piquei
Foi pra esquecer
Que a minha mãe se picava
Pra esquecer
De mim.

Tarântula



  Nevava. Era um bairro no subúrbio, quieto e pacato. Da telha mais externa de uma pequena casa, uma criatura se pendurava por uma corda invisível. Era negra e peluda, e possuía inúmeras pernas, grossas e repugnantes. Ela tremia enquanto descia lentamente pela teia que era gradualmente confeccionada. Muito literalmente, sua vida estava por um fio. A tarântula - assim os gigantes a chamavam - tinha medo de altura. Odiava quando as circunstâncias a levavam a ter que descer daquela maneira, pois, por causa de um acidente na juventude, toda vez que precisava produzir teia, sua parte traseira doía imensamente. Era por isso que não tinha uma teia de aranha para viver. Era uma tarântula nômade, desgraçada pelos seus irmãos e irmãs.
  O solo coberto de neve já estava próximo. Faltava apenas pouco mais de 1 metro. De longe, um craque repentino pôde ser ouvido. A tarântula girou para a direção do som, com um leve estremecimento de dor. Era um garotinho dentuço e sardento.
  Ele ostentava um sorriso maroto e segurava um galho.
  Horrorizada, a aranha entrou em pânico. Sabia o que estava por vir. Conseguia ler a crueldade naquelas feições, pois fora um menino como aquele que lhe garantira a traseira aleijada. Desesperadamente, começou a produzir teia mais rápido, em vão. O galho riscou o ar, e por um segundo ela flutuou, à altura dos flocos de neve.
  Um montinho mais alto de neve aliviou a sua queda. Porém, ao som do baque, apenas a falta de cordas vocais impediu o animal de cortar a atmosfera com um grito de agonia. Seu corpo inteiro foi tomado pela dor do impacto, e por causa desta não ousava mexer um membro. O frio só tornava tudo mais insuportável. A porta da casa se abriu, e uma mulher usando um grande casaco negro deu um passo para fora. Ao ver o animal à sua direita, ela gritou e voltou para dentro. Retornou com um copo d'água, e jogou todo o conteúdo na aranha. Esta se contorceu ao recebê-lo.
  Oh, porque os humanos lhe faziam isto? Era um bicho inofensivo, que só reagia ao estímulo. Nunca fizera mal a outro ser a não ser por necessidade.tinha ciência de sua aparência repulsiva e ameaçadora, porém. Se culpava por ter escolhido nascer nesse corpo. Ninguém via beleza numa tarântula. Exceto Anita.
  Uma vez, em suas andanças pela Terra, foi encontrada por uma garotinha de cabelos negros e curtos, e grandes olhos inocentes. Anita deixava ela subir pelo seu braço, escalar suas costas, até repousar em sua cabeça. Quando a aranha ficava cansada e não queria mais brincar, a menina deixava-a dormir em uma caixa de sapatos embaixo de sua cama. Esta amizade repentina durou apenas alguns dias, até a mãe da garota descobrir a aranha na caixa e despejá-la na rua. Anita fora o único ser que lhe transmitira a impressão de ser amada.
  Atirada na neve, congelando até os ossos, a tarântula sentiu que o frio extremo e a agonia não lhe dariam chance de sobrevivência. A sua existência se resumiria a isto, então? Uma patética aranha que não podia nem tecer sem se contorcer de dor? Que deprimente. Desanimada, ela tornou seus vários olhos para os lados. Na janela da casa, percebeu um vulto pequeno. Era uma garotinha.
  Seria aquela Anita? Se sim, como havia chegado naquela casa? Ora, talvez ela pudesse trazer a tarântula para dentro e esquentá-la. Talvez houvesse mesmo uma possibilidade. Esperançosa, a aranha tentou se mover quando a figura se aproximou do vidro. Mexer as pernas lhe causava muita dor, mas era a única maneira de assegurar que a menina perceberia qu ela estava viva. O vulto parou e fitou-a por alguns segundos. Virou o rosto pro lado, como se alguém a chamasse, e se afastou. A aranha descansou as patas, arrasada. Tinha certeza que Anita a vira. Era mesmo possível que até sua antiga dona sentia nojo dela agora? Fora tão ingênua assim ao acreditar que alguém poderia sentir afeição por sua imagem grotesca? Mas então porque a menina havia a acolhido?
  Pena, é claro.
  Lembrou-se de uma vez em que residiu em um jardim por alguns meses. Quando chegou lá, a primeira coisa que viu foi uma lagarta construindo um casulo em volta de si. Fascinada, passou as próximas semanas habitando o lugar, esperando, excitada, o momento em que o casulo se abriria e revelaria seus segredos. Quando o momento chegou, ela estava dormindo, e acordou com o estalo do envoltório sendo quebrado. Seus 8 olhos se direcionaram, espantados e maravilhados, para o anjo que se desprendeu de lá, e, com uma leveza e virtude que ela jamais presenciara antes, saiu voando para o mundo, suas asas coloridas num bater belo e ágil, indo de flor em flor, numa dança aérea exuberante.
  Talvez, só talvez, ela pudesse se transformar como aquela criatura.
  Tudo o que tinha que fazer era perecer e se deixar levar. Só assim poderia se libertar deste invólucro mortal e abrir suas asas para todos verem a beleza que escondia. Talvez, assim, Anita a amaria novamente. Era a única maneira de sair daquele estado grotesco de dor, no final das contas. Com um último suspiro, a tarântula exalou seu espírito e abandonou para sempre a casca de sofrimento que conhecia como vida.
 Na manhã seguinte, a garotinha saiu com sua mãe. Ela percebeu a aranha congelada ao lado, e fez menção de pega-la. A mulher a segurou pela mão, e disse:
- Maria, não toque nesse bicho! Está morto.
- Olha mamãe, ela tá congelada.
- Vamos, a gente vai se atrasar.
A menina acompanhou a mãe. Olhou pra trás, para a tarântula de gelo. Era tão bonita...

Mila



  Uma vez, enquanto passava pelas ruas mais escuras de Porto Alegre, me aconteceu algo um tanto estranho. Era meia-noite e meia. Eu voltava da casa de um conhecido, após uma noite de boêmia e risadas. Da janela do carro, enquanto esperava o sinal abrir, olhei para a direita, na calçada, e a vi.
  Era uma puta. Não foram suas roupas que a entregaram. Ela vestia botas, jeans e um canguru preto, com o capuz para cima. Naquele inverno de 7 graus, ela deveria estar congelando, vestindo apenas aquilo. Havia mulheres em sua volta, com vestuário digno da sua profissão: meia arrastão, micro saias, saltos e tamancos altíssimos, e blusas apertadas, algumas até transparentes. Muitas delas pulavam de um lado para o outro, esfregando os braços, dentes batendo. Me perguntei se elas apanhavam de seu cafetão se usassem roupas quentes, não tão reveladoras. Mas minha atenção voltou à garota do canguru. Ela se destacava entre as outras, não só pelas suas roupas, mas pelo seu rosto. As garotas ao seu redor davam a impressão de ter acidentalmente caído de cara num estojo de maquiagens. Pareciam palhaças eróticas. Mas esta menina, que não podia ter mais do que 18 ou 19 anos, tinha as faces limpas e ossudas. Parecia muito magra, seus olhos eram caídos, e seu cabelo, preto e reluzente. Provavelmente pintado. Tinha um olhar distante. Fiquei pensando se ela já estava nessa vida a tempo, e no que ela ficava pensando enquanto esperava um serviço aparecer. Parecia completamente desinteressada por tudo ao seu redor. O que poderia ter levado ela a isso?
  Minha linha de pensamentos foi interrompida quando uma delas se aproximou do carro. Essa tinha cabelos crespos, amarelo-sujo. Ela se inclinou, recostando-se na janela, e, esboçando um esgar sacana, disse:
- Afim de um serviço, moço?
Tinha uma voz aguda, feia. Alguns dentes da frente estavam quebrados. O plano de saúde delas não deveria cobrir surras. Sorri, apontando para a garota do canguru, e perguntei se ela poderia chamá-la. O esgar da puta desapareceu. Ela virou-se pra trás, e gritou, na sua voz estridente:
- Mila! O cara quer tu.
Mila. Não era nome de puta. Era bonito, até. Ao ouvir seu chamado, a garota baixou o capuz e veio andando de uma maneira engraçada, jogando os pés para frente, mãos nos bolsos. Quando chegou perto, cruzou o caminho da outra mulher, que voltava para o ponto. Ela cochichou algo em seu ouvido. Mila de um risinho seco. Apoiou-se também na janela do carro. Falou:
- Quer fechar um negócio?
Não pude deixar de dar um risinho. “Fechar um negócio” era realmente um eufemismo peculiar. A voz dela era profunda, grave, um pouco rouca. Olhei de soslaio para sua garganta. Nenhuma protuberância à vista. Não, não era trans. Ela, um tanto impaciente, disse:
- Tá, e aí? É 50 uma foda, mais 30 um oral, mais 50 o anal, mais 200 uma noite inteira, mais 20 para qualquer preferência tua. Isso inclui teatrinho, tapas, mordidas, anilíngua, e tal. Um extra de 25 pra qualquer fantasia que tu me fizer colocar, mas isso só coisas tipo enfermeira, diabinha ou animais variados. Não me meto com aquelas aberrações de couro. Uma taxa extra de 15 para qualquer machucado que tu me fizer acidentalmente, e 10 caso tu tenha piercings lá embaixo, embora pelo teu jeitinho de camisa polo enfiada dentro da calça, eu duvido que isso seja uma possibilidade. Mais 10 se tu quiser que eu minta coisas tipo “nossa, que pau enorme, é o maior que eu já vi” ou “essa foi a melhor foda da minha vida”. Mas e aí, rola ou não rola?
Olhei pra ela, um tanto embasbacado. Ela mantia seu olhar entediado. Deixei escapar uma gargalhada. Ela me olhou irritada.
- O quê que é, hein? Tenho cara de palhaça?
Me aquietei. Sorri, e disse:
- Desculpa, moça, não quis ofender. Tua eloqüência me admira. Não tá com frio?
- O que que te parece?
Fiquei quieto por alguns segundos. Lembrei da minha mulher me esperando em casa. Alguns minutos não fariam diferença. Perguntei para a garota:
- Quer entrar um pouco? Tenho ar quente no carro.
Hesitou. Parecia temerosa. Nesse tipo de vida, todo cuidado é pouco. Muita generosidade, muita confiança, e tu pode acabar amanhecendo no rio, boiando. Ela me examinou por um instante. Por fim, suspirou, e abriu a porta do carro.
  Sentou e fechou a porta. Fechei a janela e liguei o ar. Quando estendi a mão para abrir o porta-luvas, ela agarrou meu pulso e puxou um canivete.
- Se tu me tocar sem permissão, eu juro que te furo.
Engoli em seco. Gaguejando, eu disse:
- E-eu só ia lhe oferecer uma barrinha que tá aí dentro. – Apontei com a cabeça para o compartimento. Ela me olhou desconfiada. Lentamente, guardou o canivete. Largou meu braço. Abri a portinha, e lhe estendi um Chokito. Ela o pegou, e ficou estudando o pacotinho. Parecia perdida em pesamentos sobre o chocolate. Percebi que tinha olhos muito azuis. Perguntei se ela não ia comer. Respondeu:
- Ah, sim. Desculpe. Minha mãe sempre me comprava esses quando eu era pequena.
Abriu o plástico e devorou-o. Parecia faminta.
- Tava com muita fome?
- Uhum. Na nossa profissão, não tem muitas pausas pra lanche.
-Mas como, afinal, tu entrou nessa vida?
A garota ficou quieta. Era muito introspectiva, logo se via. Enfim, disse:
- Coisas acontecem, a gente cai na merda.
Uma explicação bem sucinta. Ela gostava de se distrair brincando com os cabelos. Tinha dedos longos e unhas quebradas.
- Tô a 3 anos nessa, e muitas vezes me pergunto se a culpa foi exclusivamente minha. No final das contas, a culpa nunca é exclusivamente de ninguém. É o produto de várias causas.
Ela parecia inteligente. Me perguntei o que seria se não estivesse nessa situação. Provavelmente uma advogada. Talvez graduanda em filosofia. Perguntei-lhe qual era, no geral, o tipo de clientela que ela atendia.
- Ah, os mesmos de sempre. Quarentões solteiros, ou que perderam o apetite sexual pela mulher. Políticos, advogados. O que se esperaria. Nunca são muito atraentes, mas também não são horríveis. Na maioria das vezes, pelo menos. Quando é alguém muito nojento, eu gosto de fechar os olhos e me imaginar correndo num campo. Ou nadando no mar.
Ficamos silenciosos por algum tempo. Ela parecia perdida nos próprios pensamentos. Lhe perguntei se o Chokito estava gostoso.
- Ótimo. Tem o mesmo gosto que eu me lembrava.
Falou isso e deu um quase-sorriso. Apenas curvou muito levemente os cantos da boca para cima, por um instante. Piscou, perdeu.
- Onde eu coloco o papelzinho?
- Pode deixar aí dentro do porta-luvas, mesmo. Mila, certo?
- Sim. Só um L.
Sorri. Ela parecia menos entediada agora, com essa lembrança saudosista. Abriu a portinha para guardar o plástico.
 Foi aí que a coisa estranha aconteceu.
 Quando a luz do porta-luvas se acendeu, ela notou algo que não vira estar ali antes. Um pequeno ursinho de pelúcia que eu havia comprado numa lojinha de artesanatos no centro. Minha filha de 5 anos o esquecera ali. Ela agarrou o bichinho, espantada, e pôs-se a examiná-lo de todos os ângulos possíveis. Parecia embasbacada. Murmurava coisas ininteligíveis, mas pude ouvir alguns palavrões de espanto. Perguntei-lhe se estava bem. Ela perguntou de volta:
- Isso é seu?
- É da minha filha pequena. O que houve?
 - Eu... Eu tinha um IGUAL a esse, quando eu era menina. Meu Deus, eu não sabia que ainda existia...
Ela ficou quieta de repente. Olhava fixamente para o brinquedo. Parecia hipnotizada. Eu não sabia o que dizer.
 Muito lentamente, Mila tornou o seu olhar para mim. O cabelo cobria parte da face, mas o olho esquerdo estava perfeitamente visível e muito aberto. Notei, naquela íris azul-céu, um brilho nele. Um brilho que eu não vira antes. Era como uma janela para os pensamentos daquela mulher tão peculiar. Não. Me engano. Aquele ser para o qual eu olhava não era mais uma mulher. Por um breve momento, havia comigo uma criança naquele carro. Uma criança com um olhar azulado imenso, seu ursinho predileto em mãos. Era uma menina assustada, uma menina que, por suas condições cruéis, teve que olhar na cara do mundo e ceder, teve que se tornar adulta mais cedo. Ela queria acreditar que era um pesadelo. E que eu era o sinal do fim dele. Uma portinha que dava para a saída. Ela olhou para o fundo da minha alma. Suplicou no silêncio. Por fim, ela me implorou. Jamais esquecerei o tom quebrado, frágil, em que ela sussurou estas pequenas palavras.

- Por favor. Me ajude.

 Fiquei sem o que dizer. Não sabia o que fazer ou falar. Meu instinto me dizia para levar ela para minha casa, e lhe dar um abraço. Uma cama. Uma chance nova. Um recomeço. O que ela merecia. O que ela deveria ter recebido.
 Nesse momento, houve uma forte bateção no vidro. Era um homem forte. Cavanhaque, óculos escuros, anéis e correntes. Adivinhei de cara que era seu cafetão. Ele abriu a porta e a puxou com força pelo braço. Falou grossamente:
- MILA! CARALHO, QUANTAS VEZES JÁ TE DISSE PRA NÃO FICAR DE CONVERSÊ COM A CLIENTELA?
Mila estava completamente muda. Olhava pra baixo. O homem direcionou seu olhar a mim:
- Meu amigo, é pegar ou largar. Ou tu leva ela ou tu passa. Não pode ficar segurando, a fila anda.
- O senhor não precisa ser grosso com ela, ela só tava tentando se esquentar um pouco no carro.
Ele respondeu com rispidez:
- É a MINHA puta. Trato ela como quiser. Vem. – Disse ele, puxando ela de novo pelo braço. Ela pediu para ele esperar um segundo.
  Se aproximou de mim e estendeu a mão, segurando o ursinho.
  Hesitei.
- Pode ficar.

Aniversário


  Era uma manhã quente de formatura. O batalhão escolar encontrava-se disposto nas fileiras em forma, como sempre. Porém, este era um dia muito especial. De fato, era o aniversário de cem anos do CMPA. Originalmente ele havia sido planejado para vinte e dois de março, mas, devido a certos infortúnios, a data havia sido movida para vários meses mais tarde. Os alunos suavam e agonizavam sobre a tentação de se coçar, mas ficaram perfeitamente firmes, pois esta não era uma formatura como qualquer outra. Deviam caprichar na postura. Havia porém, uma sensação muito estranha no ar. Por alguma razão, todos os presentes sentiam que de alguma forma, um evento de extrema importância se desencadearia naquele dia. Descartaram isso como ansiedade para a grande hora. Não poderiam estar mais errados ao pensarem assim. O grande relógio do colégio bateu meio-dia. O comandante, com sua postura pacífica usual, pigarreou e se preparou para começar o discurso. Aproximou a boca do microfone e começou:
- Caros alunos do Casarão da Várzea...
Sua fala foi interrompida, porém, por um repentino escurecer dos céus. Uma grande nuvem se prostara na frente do Sol. Muitos consideraram essa mudança inesperada, pois a previsão do tempo da noite anterior anunciara um dia limpo. Um tanto desconfiado, mas ainda calmo, o comandante tentou continuar:
- Nos encontramos reunidos aqui hoje, num dia tão especial, para celebrar o centenário de nosso nobre estabelecimento...
Sua fala foi novamente interrompida, desta vez por um enorme rugido de um trovão distante. As pessoas começaram a se preocupar, sem saber por quê. E então, repentinamente, todo o céu se tornou vermelho. Expressões de terror se formaram nos rostos dos cidadãos. Uma grande luz brilhou de cima, quase os cegando. Então parou. Quando voltaram suas cabeças para o alto, havia uma coisa enorme, uma espécie de relógio pairando, mas com sete selos no lugar de horas. Foi neste momento que outra luz cegante apareceu, na frente do relógio, e quando parou de brilhar, revelou um homem, parado entre sete candelabros de ouro flutuantes, vestindo uma longa túnica até os pés, com uma faixa dourada no peito. Sua cabeça e seus cabelos eram brancos, seus olhos eram como chamas de fogo, seus pés como metal incandescente. Ele segurava sete estrelas na mão direita. Uma espada de dois gumes saía-lhe da boca. O seu rosto era como o Sol, brilhando com toda a força. 


  Sua boca se abriu e ele falou, sua voz como o rumor de muitas águas:
- "Eu sou o Primeiro e o Último, Alfa e Ômega, o Início e o Fim. Vosso tempo acabaste, hereges. Trago-lhe o que foi previsto no Livro de Revelações."
Levantou ambos os braços então, e os apontou um pouco para a direita, em direção ao primeiro selo. Este brilhou e desapareceu. Do céu começaram a chover então, vários meteoros flamejantes. As pessoas começaram a correr e gritar, o caos se instaurou. Jesus moveu seus braços, e o segundo selo foi quebrado. Dezenas de hecatônquiros irados desceram rasgando os céus, e a chacina começou. Seus cem braços devastavam tudo ao seu alcance, enquanto o sangue de inocentes chovia no pátio. Ao abaixar de seus braços, o terceiro selo foi quebrado. Um terremoto sacudiu a Terra, e uma enorme fenda se abriu no solo, donde bestas draconianas saíram voando, e estas caíram sobre os primogênitos como hienas sobre a carniça. Ao romper do quarto selo, os genitais dos homens caíram como maçãs apodrecidas, as mulheres promíscuas foram acometidas pela sífilis e gonorréia de prostitutas da Babilônia, as grávidas deram a luz à chacais que rasgaram-lhe o ventre e devoraram-lhe o útero, e os homossexuais foram sodomizados por cem centauros negros satânicos que romperam pelos portões do colégio. Quando o quinto selo desapareceu, sete alunos levitaram cinco metros no ar, com flamas azuis ascendendo de seus olhos, formando um círculo, aonde um pentagrama escarlate apareceu. Disto, abriu-se um portal, daonde saíram seiscentos e sessenta e seis servos demoníacos, seguidos então por nada menos do que o príncipe das trevas, Ba‘al Azabab, ou Beelzebub, que tinha compridos chifres afiados, uma longa capa feita das peles de virgens violadas, e um falo monstruoso e gelado como a neve. Este tomou-se então de seu tridente, e ordenou aos demônios a morte dos homens e a deturpação das mulheres. No quebrar do sexto selo, um buraco negro se abriu no céu, e deste apareceu um monstro colossal, de dezenas de metros de altura, saindo até seu tronco do buraco. Possuía um milhão de olhos, 12 garras e 6 cornos. Sua cabeça era uma caveira, sua pele tinha a cor de fezes infectadas, sua boca cuspia trovões e bolas de fogo e de suas garras lançava trovões. A este ponto o CMPA não passava de ruínas tingidas com o sangue de alunos, professores e militares. Alguns sobreviventes tentavam fugir, mas a maioria era dizimada. O Filho de Deus então, uniu suas palmas, como prece, e levantou os braços, apontando-os para o último selo. Este iluminou-se e foi rompido. Sentiu-se um grande tremor e a única parede de concreto que havia restado da destruição desmoronou. Detrás da poeira, apareceu uma criatura gigantesca, com cabeça de lula e asas. Era nada mais nada menos do que o próprio Cthulhu. Parecia que os Antigos haviam se juntado à festa. E o resto, como dizem, é história.

Cruel Destino



  Pereci. Horas depois, ou segundos, minutos, eras, meses, o tempo naquele lugar não era muito discernível, acordei. Não abri os olhos de imediato. Primeiro quis conhecer a sensação post mortem, o cheiro, o gosto, você entendeu. Me senti preso, mas ao mesmo tempo, flutuando. Era interessante. Tentei sentir meu próprio corpo, e estremeci em horror ao perceber que meus membros haviam desaparecido. Também não possuía mais um pescoço, ou genitais. Era gosmento. Passado o susto e o trauma, decidi que todos deveriam ser assim na vida após a morte, portanto não havia razão para vergonha ou nojo. Mas não havia ninguém além de mim. Estranho. Continuando com meus experimentos neste novo mundo, tentei sentir o gosto da minha prisão. Era adocicada, e definitivamente eu já sentira este sabor inusitado na minha estadia curta na Terra. O cheiro também era-me familiar, mas juro por Deus que a memória de sua origem não me vinha à cabeça.
  Tentei me movimentar. Me impulsionei com meu novo corpo. A substância bizarra que me cercava era um tanto difícil de se passar, mas com algum esforço eu consegui, e fui indo. Era uma sensação boa, relaxante. Fiquei assim por horas e horas, ou talvez mais, ou menos, como já disse, o tempo passado nesse lugar era difícil de se definir. Foi no meio da minha diversão celestial que me lembrei dos meus olhos. Abri-os. Rosa. Era só isso que existia. Puro rosa. Estranhei. Geralmente nesses seminários religiosos de pessoas que juram ter voltado à vida, falam sempre de um túnel de luz, de um espectro inteiro de cores, cores novas, desconhecidas, belíssimas. E no entanto tudo o que me cercava era vermelho com branco. Mas era bonito. Comecei a procurar por outros seres, mas não precisei de muito tempo pra entender que estava completamente sozinho. O lugar era grande e circular. Não me importei com a solidão. Era boa para pensar e divagar. E assim passei muito tempo, nadando, filosofando, tentando descobrir meu propósito ali. Até que um dia a luz me atingiu como os faróis de um caminhão sendo dirigido por um bêbado decrépito a 300 km/h.
  Era um verme de goiaba.

O Obolungo



 Havia nas entranhas de uma floresta escura e fechada um obolungo. Era uma criaturinha de muita extravagância, tendo não mais não menos do que 1 metro de altura quando de pé e ereto, posição que raramente tomava. Tinha apenas um olho, já que o lugar onde o outro estaria estava coberto por uma grande e grossa folha que ele amarrara anos atrás, por razões que desconhecia, pois possuía uma memória muito curta. Sabia apenas que tinha um motivo muito forte e racional para tê-la amarrado lá, e não ousava a tirar para descobrir. Possuía uma juba embaraçada e suja de pelos na cabeça, que tinha a audácia de chamar de cabelo. Não o lavava porque tinha medo de descobrir algum monstrinho escondido lá. De roupas, possuía vários trapos que achava no chão, muitas vezes carcaças de animais, amarrados pelo corpo de maneira não-convencional e errática. Os usava não para se proteger do inverno, pois não sentia frio ou calor, mas simplesmente para se cobrir, pois tinha vergonha em andar pelado (apesar de não ter genitália). Alguns de seus dentinhos saltavam pela boca, mesmo fechada. Eram arredondados e difícilmente posariam como uma arma, sendo apenas usados para triturar as cascas velhas e caídas dos troncos de árvores, sua forma de alimentação predileta. Não os comia para saciar sua fome, pois não tinha fome ou sede, e nem pelo seu gosto, pois seu paladar era um tanto fraco, mas por que gostava da sensação da madeira velha se triturando em sua boca e descendo pela sua goela. Tinha uma pele um pouco escura, de um bege queimado, que o ajudava a se camuflar entre as folhas caídas e podres no chão, quando um predador passava. Se escondia de todos os animais por que era tímido e não gostava de ser visto. Por isso,ninguém sabia de sua existência, a não ser ele mesmo. O obolungo nunca estava feliz ou depressivo, bravo ou curioso, animado, excitado, apenas levemente melancólico, sempre. Como o seu único passatempo, ele pintava. Usava qualquer substância ao seu alcance com cor, sumos de frutas esmagadas, limo, pus, de tudo. Às vezes achava uma pedra de uma cor bonita, então a levava para a toca subterrânea onde morava e tentava misturar suas tintas para mimicar os tons da rocha. Raramente se sucedia nesse ato. Os quadros em si não tinham nada. Apenas manchas de cores disformes. O obolungo não os achava bonitos, apenas se divertia pintando. Ele fazia vários sons, que não podiam ser considerados uma língua pois, sendo o único da sua espécie, ele era o único falante. Havia criado o nome obolungo para si mesmo, que não tinha significado algum, apenas gostava da sonoridade. Não era vegetal, não era mineral, e, apesar de lembrar muito um, também não era animal. Simplesmente era. Não se lembrava de ter pais, irmãos ou filhos. Só sabia que existira desde que as árvores eram apenas brotos e as pequenas pedras lisas eram grandes rochas ásperas e irregulares.
 Então numa noite, em meio a outra pintura de mão, o obolungo percebeu que não existia. À realização deste fato, simplesmente deu de ombros e continuou pintando. E assim continuou vivendo. Obolungando.