Havia nas entranhas de uma floresta escura e fechada um obolungo. Era uma criaturinha de muita extravagância, tendo não mais não menos do que 1 metro de altura quando de pé e ereto, posição que raramente tomava. Tinha apenas um olho, já que o lugar onde o outro estaria estava coberto por uma grande e grossa folha que ele amarrara anos atrás, por razões que desconhecia, pois possuía uma memória muito curta. Sabia apenas que tinha um motivo muito forte e racional para tê-la amarrado lá, e não ousava a tirar para descobrir. Possuía uma juba embaraçada e suja de pelos na cabeça, que tinha a audácia de chamar de cabelo. Não o lavava porque tinha medo de descobrir algum monstrinho escondido lá. De roupas, possuía vários trapos que achava no chão, muitas vezes carcaças de animais, amarrados pelo corpo de maneira não-convencional e errática. Os usava não para se proteger do inverno, pois não sentia frio ou calor, mas simplesmente para se cobrir, pois tinha vergonha em andar pelado (apesar de não ter genitália). Alguns de seus dentinhos saltavam pela boca, mesmo fechada. Eram arredondados e difícilmente posariam como uma arma, sendo apenas usados para triturar as cascas velhas e caídas dos troncos de árvores, sua forma de alimentação predileta. Não os comia para saciar sua fome, pois não tinha fome ou sede, e nem pelo seu gosto, pois seu paladar era um tanto fraco, mas por que gostava da sensação da madeira velha se triturando em sua boca e descendo pela sua goela. Tinha uma pele um pouco escura, de um bege queimado, que o ajudava a se camuflar entre as folhas caídas e podres no chão, quando um predador passava. Se escondia de todos os animais por que era tímido e não gostava de ser visto. Por isso,ninguém sabia de sua existência, a não ser ele mesmo. O obolungo nunca estava feliz ou depressivo, bravo ou curioso, animado, excitado, apenas levemente melancólico, sempre. Como o seu único passatempo, ele pintava. Usava qualquer substância ao seu alcance com cor, sumos de frutas esmagadas, limo, pus, de tudo. Às vezes achava uma pedra de uma cor bonita, então a levava para a toca subterrânea onde morava e tentava misturar suas tintas para mimicar os tons da rocha. Raramente se sucedia nesse ato. Os quadros em si não tinham nada. Apenas manchas de cores disformes. O obolungo não os achava bonitos, apenas se divertia pintando. Ele fazia vários sons, que não podiam ser considerados uma língua pois, sendo o único da sua espécie, ele era o único falante. Havia criado o nome obolungo para si mesmo, que não tinha significado algum, apenas gostava da sonoridade. Não era vegetal, não era mineral, e, apesar de lembrar muito um, também não era animal. Simplesmente era. Não se lembrava de ter pais, irmãos ou filhos. Só sabia que existira desde que as árvores eram apenas brotos e as pequenas pedras lisas eram grandes rochas ásperas e irregulares.
Então numa noite, em meio a outra pintura de mão, o obolungo percebeu que não existia. À realização deste fato, simplesmente deu de ombros e continuou pintando. E assim continuou vivendo. Obolungando.
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