Uma vez, enquanto passava pelas ruas mais escuras de Porto Alegre, me aconteceu algo um tanto estranho. Era meia-noite e meia. Eu voltava da casa de um conhecido, após uma noite de boêmia e risadas. Da janela do carro, enquanto esperava o sinal abrir, olhei para a direita, na calçada, e a vi.
Era uma puta. Não foram suas roupas que a entregaram. Ela vestia botas, jeans e um canguru preto, com o capuz para cima. Naquele inverno de 7 graus, ela deveria estar congelando, vestindo apenas aquilo. Havia mulheres em sua volta, com vestuário digno da sua profissão: meia arrastão, micro saias, saltos e tamancos altíssimos, e blusas apertadas, algumas até transparentes. Muitas delas pulavam de um lado para o outro, esfregando os braços, dentes batendo. Me perguntei se elas apanhavam de seu cafetão se usassem roupas quentes, não tão reveladoras. Mas minha atenção voltou à garota do canguru. Ela se destacava entre as outras, não só pelas suas roupas, mas pelo seu rosto. As garotas ao seu redor davam a impressão de ter acidentalmente caído de cara num estojo de maquiagens. Pareciam palhaças eróticas. Mas esta menina, que não podia ter mais do que 18 ou 19 anos, tinha as faces limpas e ossudas. Parecia muito magra, seus olhos eram caídos, e seu cabelo, preto e reluzente. Provavelmente pintado. Tinha um olhar distante. Fiquei pensando se ela já estava nessa vida a tempo, e no que ela ficava pensando enquanto esperava um serviço aparecer. Parecia completamente desinteressada por tudo ao seu redor. O que poderia ter levado ela a isso?
Minha linha de pensamentos foi interrompida quando uma delas se aproximou do carro. Essa tinha cabelos crespos, amarelo-sujo. Ela se inclinou, recostando-se na janela, e, esboçando um esgar sacana, disse:
- Afim de um serviço, moço?
Tinha uma voz aguda, feia. Alguns dentes da frente estavam quebrados. O plano de saúde delas não deveria cobrir surras. Sorri, apontando para a garota do canguru, e perguntei se ela poderia chamá-la. O esgar da puta desapareceu. Ela virou-se pra trás, e gritou, na sua voz estridente:
- Mila! O cara quer tu.
Mila. Não era nome de puta. Era bonito, até. Ao ouvir seu chamado, a garota baixou o capuz e veio andando de uma maneira engraçada, jogando os pés para frente, mãos nos bolsos. Quando chegou perto, cruzou o caminho da outra mulher, que voltava para o ponto. Ela cochichou algo em seu ouvido. Mila de um risinho seco. Apoiou-se também na janela do carro. Falou:
- Quer fechar um negócio?
Não pude deixar de dar um risinho. “Fechar um negócio” era realmente um eufemismo peculiar. A voz dela era profunda, grave, um pouco rouca. Olhei de soslaio para sua garganta. Nenhuma protuberância à vista. Não, não era trans. Ela, um tanto impaciente, disse:
- Tá, e aí? É 50 uma foda, mais 30 um oral, mais 50 o anal, mais 200 uma noite inteira, mais 20 para qualquer preferência tua. Isso inclui teatrinho, tapas, mordidas, anilíngua, e tal. Um extra de 25 pra qualquer fantasia que tu me fizer colocar, mas isso só coisas tipo enfermeira, diabinha ou animais variados. Não me meto com aquelas aberrações de couro. Uma taxa extra de 15 para qualquer machucado que tu me fizer acidentalmente, e 10 caso tu tenha piercings lá embaixo, embora pelo teu jeitinho de camisa polo enfiada dentro da calça, eu duvido que isso seja uma possibilidade. Mais 10 se tu quiser que eu minta coisas tipo “nossa, que pau enorme, é o maior que eu já vi” ou “essa foi a melhor foda da minha vida”. Mas e aí, rola ou não rola?
Olhei pra ela, um tanto embasbacado. Ela mantia seu olhar entediado. Deixei escapar uma gargalhada. Ela me olhou irritada.
- O quê que é, hein? Tenho cara de palhaça?
Me aquietei. Sorri, e disse:
- Desculpa, moça, não quis ofender. Tua eloqüência me admira. Não tá com frio?
- O que que te parece?
Fiquei quieto por alguns segundos. Lembrei da minha mulher me esperando em casa. Alguns minutos não fariam diferença. Perguntei para a garota:
- Quer entrar um pouco? Tenho ar quente no carro.
Hesitou. Parecia temerosa. Nesse tipo de vida, todo cuidado é pouco. Muita generosidade, muita confiança, e tu pode acabar amanhecendo no rio, boiando. Ela me examinou por um instante. Por fim, suspirou, e abriu a porta do carro.
Sentou e fechou a porta. Fechei a janela e liguei o ar. Quando estendi a mão para abrir o porta-luvas, ela agarrou meu pulso e puxou um canivete.
- Se tu me tocar sem permissão, eu juro que te furo.
Engoli em seco. Gaguejando, eu disse:
- E-eu só ia lhe oferecer uma barrinha que tá aí dentro. – Apontei com a cabeça para o compartimento. Ela me olhou desconfiada. Lentamente, guardou o canivete. Largou meu braço. Abri a portinha, e lhe estendi um Chokito. Ela o pegou, e ficou estudando o pacotinho. Parecia perdida em pesamentos sobre o chocolate. Percebi que tinha olhos muito azuis. Perguntei se ela não ia comer. Respondeu:
- Ah, sim. Desculpe. Minha mãe sempre me comprava esses quando eu era pequena.
Abriu o plástico e devorou-o. Parecia faminta.
- Tava com muita fome?
- Uhum. Na nossa profissão, não tem muitas pausas pra lanche.
-Mas como, afinal, tu entrou nessa vida?
A garota ficou quieta. Era muito introspectiva, logo se via. Enfim, disse:
- Coisas acontecem, a gente cai na merda.
Uma explicação bem sucinta. Ela gostava de se distrair brincando com os cabelos. Tinha dedos longos e unhas quebradas.
- Tô a 3 anos nessa, e muitas vezes me pergunto se a culpa foi exclusivamente minha. No final das contas, a culpa nunca é exclusivamente de ninguém. É o produto de várias causas.
Ela parecia inteligente. Me perguntei o que seria se não estivesse nessa situação. Provavelmente uma advogada. Talvez graduanda em filosofia. Perguntei-lhe qual era, no geral, o tipo de clientela que ela atendia.
- Ah, os mesmos de sempre. Quarentões solteiros, ou que perderam o apetite sexual pela mulher. Políticos, advogados. O que se esperaria. Nunca são muito atraentes, mas também não são horríveis. Na maioria das vezes, pelo menos. Quando é alguém muito nojento, eu gosto de fechar os olhos e me imaginar correndo num campo. Ou nadando no mar.
Ficamos silenciosos por algum tempo. Ela parecia perdida nos próprios pensamentos. Lhe perguntei se o Chokito estava gostoso.
- Ótimo. Tem o mesmo gosto que eu me lembrava.
Falou isso e deu um quase-sorriso. Apenas curvou muito levemente os cantos da boca para cima, por um instante. Piscou, perdeu.
- Onde eu coloco o papelzinho?
- Pode deixar aí dentro do porta-luvas, mesmo. Mila, certo?
- Sim. Só um L.
Sorri. Ela parecia menos entediada agora, com essa lembrança saudosista. Abriu a portinha para guardar o plástico.
Foi aí que a coisa estranha aconteceu.
Quando a luz do porta-luvas se acendeu, ela notou algo que não vira estar ali antes. Um pequeno ursinho de pelúcia que eu havia comprado numa lojinha de artesanatos no centro. Minha filha de 5 anos o esquecera ali. Ela agarrou o bichinho, espantada, e pôs-se a examiná-lo de todos os ângulos possíveis. Parecia embasbacada. Murmurava coisas ininteligíveis, mas pude ouvir alguns palavrões de espanto. Perguntei-lhe se estava bem. Ela perguntou de volta:
- Isso é seu?
- É da minha filha pequena. O que houve?
- Eu... Eu tinha um IGUAL a esse, quando eu era menina. Meu Deus, eu não sabia que ainda existia...
Ela ficou quieta de repente. Olhava fixamente para o brinquedo. Parecia hipnotizada. Eu não sabia o que dizer.
Muito lentamente, Mila tornou o seu olhar para mim. O cabelo cobria parte da face, mas o olho esquerdo estava perfeitamente visível e muito aberto. Notei, naquela íris azul-céu, um brilho nele. Um brilho que eu não vira antes. Era como uma janela para os pensamentos daquela mulher tão peculiar. Não. Me engano. Aquele ser para o qual eu olhava não era mais uma mulher. Por um breve momento, havia comigo uma criança naquele carro. Uma criança com um olhar azulado imenso, seu ursinho predileto em mãos. Era uma menina assustada, uma menina que, por suas condições cruéis, teve que olhar na cara do mundo e ceder, teve que se tornar adulta mais cedo. Ela queria acreditar que era um pesadelo. E que eu era o sinal do fim dele. Uma portinha que dava para a saída. Ela olhou para o fundo da minha alma. Suplicou no silêncio. Por fim, ela me implorou. Jamais esquecerei o tom quebrado, frágil, em que ela sussurou estas pequenas palavras.
- Por favor. Me ajude.
Fiquei sem o que dizer. Não sabia o que fazer ou falar. Meu instinto me dizia para levar ela para minha casa, e lhe dar um abraço. Uma cama. Uma chance nova. Um recomeço. O que ela merecia. O que ela deveria ter recebido.
Nesse momento, houve uma forte bateção no vidro. Era um homem forte. Cavanhaque, óculos escuros, anéis e correntes. Adivinhei de cara que era seu cafetão. Ele abriu a porta e a puxou com força pelo braço. Falou grossamente:
- MILA! CARALHO, QUANTAS VEZES JÁ TE DISSE PRA NÃO FICAR DE CONVERSÊ COM A CLIENTELA?
Mila estava completamente muda. Olhava pra baixo. O homem direcionou seu olhar a mim:
- Meu amigo, é pegar ou largar. Ou tu leva ela ou tu passa. Não pode ficar segurando, a fila anda.
- O senhor não precisa ser grosso com ela, ela só tava tentando se esquentar um pouco no carro.
Ele respondeu com rispidez:
- É a MINHA puta. Trato ela como quiser. Vem. – Disse ele, puxando ela de novo pelo braço. Ela pediu para ele esperar um segundo.
Se aproximou de mim e estendeu a mão, segurando o ursinho.
Hesitei.
- Pode ficar.
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