quarta-feira, 25 de julho de 2012

Cruel Destino



  Pereci. Horas depois, ou segundos, minutos, eras, meses, o tempo naquele lugar não era muito discernível, acordei. Não abri os olhos de imediato. Primeiro quis conhecer a sensação post mortem, o cheiro, o gosto, você entendeu. Me senti preso, mas ao mesmo tempo, flutuando. Era interessante. Tentei sentir meu próprio corpo, e estremeci em horror ao perceber que meus membros haviam desaparecido. Também não possuía mais um pescoço, ou genitais. Era gosmento. Passado o susto e o trauma, decidi que todos deveriam ser assim na vida após a morte, portanto não havia razão para vergonha ou nojo. Mas não havia ninguém além de mim. Estranho. Continuando com meus experimentos neste novo mundo, tentei sentir o gosto da minha prisão. Era adocicada, e definitivamente eu já sentira este sabor inusitado na minha estadia curta na Terra. O cheiro também era-me familiar, mas juro por Deus que a memória de sua origem não me vinha à cabeça.
  Tentei me movimentar. Me impulsionei com meu novo corpo. A substância bizarra que me cercava era um tanto difícil de se passar, mas com algum esforço eu consegui, e fui indo. Era uma sensação boa, relaxante. Fiquei assim por horas e horas, ou talvez mais, ou menos, como já disse, o tempo passado nesse lugar era difícil de se definir. Foi no meio da minha diversão celestial que me lembrei dos meus olhos. Abri-os. Rosa. Era só isso que existia. Puro rosa. Estranhei. Geralmente nesses seminários religiosos de pessoas que juram ter voltado à vida, falam sempre de um túnel de luz, de um espectro inteiro de cores, cores novas, desconhecidas, belíssimas. E no entanto tudo o que me cercava era vermelho com branco. Mas era bonito. Comecei a procurar por outros seres, mas não precisei de muito tempo pra entender que estava completamente sozinho. O lugar era grande e circular. Não me importei com a solidão. Era boa para pensar e divagar. E assim passei muito tempo, nadando, filosofando, tentando descobrir meu propósito ali. Até que um dia a luz me atingiu como os faróis de um caminhão sendo dirigido por um bêbado decrépito a 300 km/h.
  Era um verme de goiaba.

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