quarta-feira, 25 de julho de 2012

Tarântula



  Nevava. Era um bairro no subúrbio, quieto e pacato. Da telha mais externa de uma pequena casa, uma criatura se pendurava por uma corda invisível. Era negra e peluda, e possuía inúmeras pernas, grossas e repugnantes. Ela tremia enquanto descia lentamente pela teia que era gradualmente confeccionada. Muito literalmente, sua vida estava por um fio. A tarântula - assim os gigantes a chamavam - tinha medo de altura. Odiava quando as circunstâncias a levavam a ter que descer daquela maneira, pois, por causa de um acidente na juventude, toda vez que precisava produzir teia, sua parte traseira doía imensamente. Era por isso que não tinha uma teia de aranha para viver. Era uma tarântula nômade, desgraçada pelos seus irmãos e irmãs.
  O solo coberto de neve já estava próximo. Faltava apenas pouco mais de 1 metro. De longe, um craque repentino pôde ser ouvido. A tarântula girou para a direção do som, com um leve estremecimento de dor. Era um garotinho dentuço e sardento.
  Ele ostentava um sorriso maroto e segurava um galho.
  Horrorizada, a aranha entrou em pânico. Sabia o que estava por vir. Conseguia ler a crueldade naquelas feições, pois fora um menino como aquele que lhe garantira a traseira aleijada. Desesperadamente, começou a produzir teia mais rápido, em vão. O galho riscou o ar, e por um segundo ela flutuou, à altura dos flocos de neve.
  Um montinho mais alto de neve aliviou a sua queda. Porém, ao som do baque, apenas a falta de cordas vocais impediu o animal de cortar a atmosfera com um grito de agonia. Seu corpo inteiro foi tomado pela dor do impacto, e por causa desta não ousava mexer um membro. O frio só tornava tudo mais insuportável. A porta da casa se abriu, e uma mulher usando um grande casaco negro deu um passo para fora. Ao ver o animal à sua direita, ela gritou e voltou para dentro. Retornou com um copo d'água, e jogou todo o conteúdo na aranha. Esta se contorceu ao recebê-lo.
  Oh, porque os humanos lhe faziam isto? Era um bicho inofensivo, que só reagia ao estímulo. Nunca fizera mal a outro ser a não ser por necessidade.tinha ciência de sua aparência repulsiva e ameaçadora, porém. Se culpava por ter escolhido nascer nesse corpo. Ninguém via beleza numa tarântula. Exceto Anita.
  Uma vez, em suas andanças pela Terra, foi encontrada por uma garotinha de cabelos negros e curtos, e grandes olhos inocentes. Anita deixava ela subir pelo seu braço, escalar suas costas, até repousar em sua cabeça. Quando a aranha ficava cansada e não queria mais brincar, a menina deixava-a dormir em uma caixa de sapatos embaixo de sua cama. Esta amizade repentina durou apenas alguns dias, até a mãe da garota descobrir a aranha na caixa e despejá-la na rua. Anita fora o único ser que lhe transmitira a impressão de ser amada.
  Atirada na neve, congelando até os ossos, a tarântula sentiu que o frio extremo e a agonia não lhe dariam chance de sobrevivência. A sua existência se resumiria a isto, então? Uma patética aranha que não podia nem tecer sem se contorcer de dor? Que deprimente. Desanimada, ela tornou seus vários olhos para os lados. Na janela da casa, percebeu um vulto pequeno. Era uma garotinha.
  Seria aquela Anita? Se sim, como havia chegado naquela casa? Ora, talvez ela pudesse trazer a tarântula para dentro e esquentá-la. Talvez houvesse mesmo uma possibilidade. Esperançosa, a aranha tentou se mover quando a figura se aproximou do vidro. Mexer as pernas lhe causava muita dor, mas era a única maneira de assegurar que a menina perceberia qu ela estava viva. O vulto parou e fitou-a por alguns segundos. Virou o rosto pro lado, como se alguém a chamasse, e se afastou. A aranha descansou as patas, arrasada. Tinha certeza que Anita a vira. Era mesmo possível que até sua antiga dona sentia nojo dela agora? Fora tão ingênua assim ao acreditar que alguém poderia sentir afeição por sua imagem grotesca? Mas então porque a menina havia a acolhido?
  Pena, é claro.
  Lembrou-se de uma vez em que residiu em um jardim por alguns meses. Quando chegou lá, a primeira coisa que viu foi uma lagarta construindo um casulo em volta de si. Fascinada, passou as próximas semanas habitando o lugar, esperando, excitada, o momento em que o casulo se abriria e revelaria seus segredos. Quando o momento chegou, ela estava dormindo, e acordou com o estalo do envoltório sendo quebrado. Seus 8 olhos se direcionaram, espantados e maravilhados, para o anjo que se desprendeu de lá, e, com uma leveza e virtude que ela jamais presenciara antes, saiu voando para o mundo, suas asas coloridas num bater belo e ágil, indo de flor em flor, numa dança aérea exuberante.
  Talvez, só talvez, ela pudesse se transformar como aquela criatura.
  Tudo o que tinha que fazer era perecer e se deixar levar. Só assim poderia se libertar deste invólucro mortal e abrir suas asas para todos verem a beleza que escondia. Talvez, assim, Anita a amaria novamente. Era a única maneira de sair daquele estado grotesco de dor, no final das contas. Com um último suspiro, a tarântula exalou seu espírito e abandonou para sempre a casca de sofrimento que conhecia como vida.
 Na manhã seguinte, a garotinha saiu com sua mãe. Ela percebeu a aranha congelada ao lado, e fez menção de pega-la. A mulher a segurou pela mão, e disse:
- Maria, não toque nesse bicho! Está morto.
- Olha mamãe, ela tá congelada.
- Vamos, a gente vai se atrasar.
A menina acompanhou a mãe. Olhou pra trás, para a tarântula de gelo. Era tão bonita...

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