sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Orfeu

Achei isso no arquivo do meu Twitter, tinha postado no Facebook no início do ano passado e esquecido completamente. Gostei.


"Devo eu seguir pelo código dos justiceiros e buscar fazer a ordem nesta sociedade decadente? Ou me mutilar da ética humana e pairar acima do bem e do mal, buscando meus ideais custem eles o que custarem? Onde está a verdadeira dor, na ilusão de que ainda existe bondade no oceano negro e profundo da alma humana, ou em me tornar o monstro com o qual lutei minha vida inteira? Na escolha do menos doentio, me torno o Cavaleiro da Armadura Ácida, combatendo pelas virtudes que há muito morreram, afogadas na labuta do ser humano, ou reinvento-me como um criminoso suave, que é caçado por buscar sua felicidade. Aqui está, a dúvida excruciante, de como se proceder em tal mundo imundo que criamos."
- Orfeu

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

A casa da rua dos bobos

Bateram à porta da casa decrépita. Atendeu um homem de meia-idade, calvo e de oclinhos redondos. "Não adianta ficar batendo. A criança que morava aqui morreu. Morreu de tempo, de inevitabilidade. Agora só teu eu". Incrédulos, o empurraram para o lado e começaram a inspecionar a casa.

Era quase vazia. Haviam apenas alguns poucos móveis escuros e marrons. Sem TV, sem livros, sem vida. Um notebook ligado num canto. Subiram as escadas que rangiam até o segundo andar. Havia algumas coisas lá: medos, inseguranças, perversões sexuais. Em um quarto, uma dúzia de pessoas sentadas em cadeiras de ouro e espaldar reto, usando coroas e cetros. "Onde está ele? Estamos esperando seu próximo show, o último foi uma porcaria".

O senhor apareceu de novo, desta vez com roupas de arlequim. Com um sorriso desenhado nos cantos dos lábios, começou a sapatear. Alguns dos reis riram, alguns vaiaram, muitos foram indiferentes. Saíram do quarto em busca de mais alguma coisa. No fim do corredor havia uma lareira vazia. O homem veio correndo. "Ela acendeu, ela acendeu? Às vezes ela acende!". Sentou-se de pernas cruzadas na frente do console e ficou observando, esperando. Desesperados, pegaram um bisturi e abriram seu peito, à procura de mais alguma coisa, qualquer coisa que não fizesse aquele lugar tão monótono e cinza.

Estava vazio.

domingo, 10 de fevereiro de 2013

egocêntrico

Chega de desviar o assunto sempre pra ti mesmo, frustrado. O mundo não espera quando tu cai, todo mundo tem suas mazelas, levanta e continua correndo.

Um festim de hienas

Se a morte me perguntar
"Do que sentiu mais falta na caminhada?"
Eu responderei: compaixão
E então não haverá mais nada

E as hienas dirão:
"Oh, pobre coitado!"
Enquanto se desjejuam no festim
Da minha própria carcaça

E assim será o fim
Pois assim dá voltas o mundo,
E assim envelhece o mundo,
E assim se desmorona o mundo.


terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

estéril por dentro

É terrível perder as tuas cores quando tu entra na adolescência.

Olhar à tua volta e ver gente da tua idade, do teu meio e com os teus problemas que consegue ter uma resposta a eles. E então tu volta os teus olhos para dentro de ti mesmo e tá tudo oco. Nada.

Eu vejo gente de meia-idade passando por isso. Gente balzaquiana, às vezes. Mas isso não é animador, isso não me faz pensar "oba, pelo menos eles sabem pelo que eu passo". Porque o mundo faz uma promessa involuntária de que, aos 16 anos, tu tem um animal selvagem preso dentro de ti, dando patadas e arranhando pra se libertar. E o maior prazer é poder abrir a porta da gaiola por um segundo e deixar ele mostrar pra todo mundo que sim, tu tá vivo, tu tá frustrado e tu não quer continuar assim.

Bom, a minha gaiola tá vazia.

Morre 200 nego em um incêndio e dá meio mundo chorando as tripas fora por causa disso. E de ti, nem uma piscadela de surpresa. Chega no fim do ensino médio e teus colegas emocionados irão se abraçar, dizer que essa jornada foi emocionante e que eles jamais vão se esquecer dos momentos que passaram juntos, e que a saudade vai arder pra caralho, assim como nossos professores nos disseram que seria. E tu sabe. Tu só sabe. Que nada disso vai se passar em ti.

E eu não posso mentir e dizer que eu não sinto absolutamente nada. Há pequenas satisfações, e pequenas frustrações, e pequenas risadas cotidianas e pequenos choros eventuais. Amostras grátis. Triste, porque
amostra grátis não alimenta ninguém. Muito, muito raramente, há momentos de raiva extrema, ou de tristeza extrema. Mas eles vão tão rápido quanto vieram. E quando tu volta pra o teu purgatório emocional, é como se eles nunca tivessem existido, ou como se eles não fossem tudo aquilo que pareceram ser.

Porra, a maior dúvida existencial humana é se a gente um dia vai encontrar a felicidade.

Eu tô pouco me fudendo pra felicidade.

Tudo o que eu quero é odiar tudo. Odiar o mundo, odiar as pessoas, me odiar. Quero querer morrer. Quero me dilacerar por dentro, quero chorar até secar, quero bater no fundo do poço e escavar mais um pouco. Quero dor extrema.

Porque sentir dor é tão, tão melhor do que não sentir nada.