É terrível perder as tuas cores quando tu entra na adolescência.
Olhar à tua volta e ver gente da tua idade, do teu meio e com os teus problemas que consegue ter uma resposta a eles. E então tu volta os teus olhos para dentro de ti mesmo e tá tudo oco. Nada.
Eu vejo gente de meia-idade passando por isso. Gente balzaquiana, às vezes. Mas isso não é animador, isso não me faz pensar "oba, pelo menos eles sabem pelo que eu passo". Porque o mundo faz uma promessa involuntária de que, aos 16 anos, tu tem um animal selvagem preso dentro de ti, dando patadas e arranhando pra se libertar. E o maior prazer é poder abrir a porta da gaiola por um segundo e deixar ele mostrar pra todo mundo que sim, tu tá vivo, tu tá frustrado e tu não quer continuar assim.
Bom, a minha gaiola tá vazia.
Morre 200 nego em um incêndio e dá meio mundo chorando as tripas fora por causa disso. E de ti, nem uma piscadela de surpresa. Chega no fim do ensino médio e teus colegas emocionados irão se abraçar, dizer que essa jornada foi emocionante e que eles jamais vão se esquecer dos momentos que passaram juntos, e que a saudade vai arder pra caralho, assim como nossos professores nos disseram que seria. E tu sabe. Tu só sabe. Que nada disso vai se passar em ti.
E eu não posso mentir e dizer que eu não sinto absolutamente nada. Há pequenas satisfações, e pequenas frustrações, e pequenas risadas cotidianas e pequenos choros eventuais. Amostras grátis. Triste, porque
amostra grátis não alimenta ninguém. Muito, muito raramente, há momentos de raiva extrema, ou de tristeza extrema. Mas eles vão tão rápido quanto vieram. E quando tu volta pra o teu purgatório emocional, é como se eles nunca tivessem existido, ou como se eles não fossem tudo aquilo que pareceram ser.
Porra, a maior dúvida existencial humana é se a gente um dia vai encontrar a felicidade.
Eu tô pouco me fudendo pra felicidade.
Tudo o que eu quero é odiar tudo. Odiar o mundo, odiar as pessoas, me odiar. Quero querer morrer. Quero me dilacerar por dentro, quero chorar até secar, quero bater no fundo do poço e escavar mais um pouco. Quero dor extrema.
Porque sentir dor é tão, tão melhor do que não sentir nada.
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