Bateram à porta da casa decrépita. Atendeu um homem de meia-idade, calvo e de oclinhos redondos. "Não adianta ficar batendo. A criança que morava aqui morreu. Morreu de tempo, de inevitabilidade. Agora só teu eu". Incrédulos, o empurraram para o lado e começaram a inspecionar a casa.
Era quase vazia. Haviam apenas alguns poucos móveis escuros e marrons. Sem TV, sem livros, sem vida. Um notebook ligado num canto. Subiram as escadas que rangiam até o segundo andar. Havia algumas coisas lá: medos, inseguranças, perversões sexuais. Em um quarto, uma dúzia de pessoas sentadas em cadeiras de ouro e espaldar reto, usando coroas e cetros. "Onde está ele? Estamos esperando seu próximo show, o último foi uma porcaria".
O senhor apareceu de novo, desta vez com roupas de arlequim. Com um sorriso desenhado nos cantos dos lábios, começou a sapatear. Alguns dos reis riram, alguns vaiaram, muitos foram indiferentes. Saíram do quarto em busca de mais alguma coisa. No fim do corredor havia uma lareira vazia. O homem veio correndo. "Ela acendeu, ela acendeu? Às vezes ela acende!". Sentou-se de pernas cruzadas na frente do console e ficou observando, esperando. Desesperados, pegaram um bisturi e abriram seu peito, à procura de mais alguma coisa, qualquer coisa que não fizesse aquele lugar tão monótono e cinza.
Estava vazio.
É tão intragável se sentir monocromático por dentro...
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