quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

Eu, escarradeira do diabo

Quando tu passar pelo poço da vergonha
Olhe para baixo, rei!
Vês aquela criatura macilenta, contorcida e medonha?
Essa besta sou eu! Como sempre fui e como sempre serei.

Ela, reduzida ao pó que tu pisas,
Sou eu, criança transfigurada em rato de esgoto
Ela, negada da compaixão que mais precisas,
Sou eu, adornado em manto puído e roto
Ela, transformada de broto verdejante a toco podre e funguento
Sou eu, ser odiável e odiado
Ela, que teve o ego destruído e mutilado
Sou eu, aqui e agora lhe torturando com o meu lamento

Então tire logo essa venda dos olhos para ver o meu tormento!
Sou isso mesmo que tu vê

Eu Fui a criança que tu humilhou
Eu Sou o adolescente que tu destrói
Eu Serei o adulto que tu crucificarás
O carpete pisoteado que ninguém amou

E não importa se sempre arranco um pedaço de mim
Toda vez que ganho sua maldita aprovação
Não importa o quanto dói, não é fácil assim
Na tua mente superior ainda sou uma abominação
Pois bem, que assim seja!
Abraçarei a minha maldição
E quero que tu vejas!
Veja! Veja! VEJA!

Quero ser a bosta sob seu sapato
E a pomba que defeca sobre ti
Quero ser pra ti um fracassado nato
E um vendedor de misérias
Que na calada da noite se embebeda com a própria melancolia
Quero ser a caricatura caçoada ao tentar ser séria
Sem morfina, sem folia
Quero ser tudo aquilo que tu despreza e mais um pouco
Quero ser o seu eterno bobo-da-corte
Que quando se rebelar será visto como louco
E entre a humilhação e a tortura, escolherá a morte
Deitado em caixão de papelão e cremado com álcool de cozinha
E com uma lembrança póstuma não de mártir, mas de triste pateta
Para mim não haverá luto, sequer uma lágrimazinha
E futuras gerações me verão como uma seta para o que não ser

Pois prefiro tudo isto
E todo o fogo do inferno, meu senhor
A participar do seu chiqueiro moral por todos bem-visto
Essa hipocrisia cafajeste, essa sociopatia doente
Na perspectiva de alimentar esses vermes psíquicos, prefiro a dor
Pois a casca dura feita por suas pedras protege a minha mente
Ouviste bem, carrasco!
Em sua tentativa doentia de me "consertar"
Tu apenas selaste o meu defeito elementar

E fez da minha essência o teu asco.

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