sexta-feira, 21 de junho de 2013

A Vida Primária de D.C. ou Antroporragia

Minha vida costumava ser simples e alegre. Eu bebia das cores do mundo e sentia que poderia fazer várias coisas e ir a vários lugares. Aquela felicidade gostosa de estar à orla de algo incrível, e segurar o passo pra sentir o momento. Eu recheava a minha cabeça com desenhos animados e brinquedos. Os momentos mais simplórios eram bons para mim.

Mas então entrei no Ateneu. E a malícia do mundo me prendeu num canto de uma sala, com um chapéu de burro na cabeça. Mas será que mereci? Um porco-espinho tem culpa de ferir ao se aproximar dos outros? Éramos crianças, ninguém sabia que algumas brincadeiras e apelidos levam anos de psicoterapia para serem exorcizados. Por isso, não os incrimino. E não havia o que temer: eu ainda possuía a minha felicidade. Mas o triste é que eu não sabia disso. Porque a prova mais concreta da existência de algo é a sua destruição.

Um dia morri. Atravessei a rua e abri os olhos: era a realidade. Ou seria a morte? Do seu casaco negro, puxou um revolver. Disparou 13 vezes, mas só o último acertou; a lâmina da pistola era velha e cega. Tomei um tiro da realidade. Caí no chão sangrando minhas cores, meus sabores, minhas emoções, minhas sensações. Toda a minha humanidade se esvaiu pelo asfalto. A ambulância chegou, mas era tarde: eu morrera de antroporragia.

Mas o meu invólucro não morrera (e voilá! aqui estou). E eu levantei e segui caminhando a terra. Mas nada mudaria o fato de que eu havia me esvaziado da minha condição humana. Eu perdera todos os meus aspectos que me diferenciavam do animal neutro e estoico. Era como se eu houvesse chegado ao estado mais primário da vida, aquele quase morto, pulsante, cinza, sem gosto e sem som. Era a vida primária, a vida primária segundo G.H. Sim, G.H., eu entendi, eu compreendi a tua incompreensão.

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