terça-feira, 20 de agosto de 2013

Carta a uma Silhueta

Preciso falar contigo.

Sei que perdemos contato. Sei que ando te ignorando. Pode ficar bravo comigo, não vou me magoar. Mas por favor, me ouça. Tenho algo importante que preciso te contar. Mas é uma coisa difícil pra se falar, por isso te escrevo. Mesmo via palavras digitadas, ainda não estou certo se devo fazer isso ou não. Porque é um assunto que sempre prometi para mim mesmo que eu nunca usaria num texto meu, nem que fosse para outra pessoa, como este.

Entende: desde que eu me conheço por gente, a originalidade era uma qualidade que eu prezava demais. Acho que eu sempre soube que minha vocação residiria no meio criativo. E pra mim, se eu vou concentrar minhas forças na criação de algo que me cativa, eu quero que as pessoas entendam o quanto aquele assunto significa pra mim. Não só que entendam, mas que sintam no âmago. E o pior feedback que eu poderia receber seria ter feito algo sem graça, bege e rotineiro, sem grandes atrativos. Pra mim, é preferível ser muito ruim do que médio. O comum me aterroriza.

E o que me tortura é que eu ando me achando tão normal. Pior que ficar nos extremos é isso, ficar ilhado no meio-termo. Nem nas estrelas nem no mar abissal, só a areia. E se não é médio, é ruim. Mas não muito ruim. E sabe, tantas vezes eu tentei colocar a minha alma em alguma coisa, e tantas vezes mais tarde eu me achei ridículo... Mas isso só acontece porque eu sou todo errado. Nunca faço as coisas na hora certa, me esqueço, me distraio, e o que sai depois não é o mesmo. E acho que isso já tá acontecendo com esse texto. Se eu tivesse parado e escrito ele quando me deu vontade, eu não teria essa angústia que eu to sentindo agora. 

Então, compreende que eu não sou mestre nem na arte de me expressar. E se já estou errando agora, não devo me arriscar a continuar. O meu pior pesadelo seria estragar esse sentimento, porque é intenso demais, puro demais pra eu o perder. E infelizmente, ele também já foi banalizado pelo mundo. Não quero que tu leia isso só com os olhos, e que pense nas outras milhares de vezes que tu já leu isso antes, em outros lugares. Preciso que essa sensação que me assombra te atinja em cheio, como um balaço no estômago, quando tu fica desesperado porque não consegue respirar. Não sei se tenho a capacidade pra produzir isso em alguém. Mas...

Mas agora já é tarde demais. Eu fui muito longe nisto, preciso terminar, já não é mais uma escolha. E se eu me recusar a falar, a coisa vai explodir da minha boca. Já posso a sentir subindo pelo meu esôfago, se aproximando da glote. Se eu deixá-la sair involuntariamente, por conta própria, o resultado poderá ser desastroso. Não, eu preciso consentir, eu preciso fazer isto direito. Já está na minha boca. Ela tem gosto de palpitações, de coração acelerado. Pois bem, chega de suspiros. Aqui vai.

Eu te amo.

Pare. Por favor, segure todos os pensamentos e a surpresa que te assaltaram ao ler isso e só pare um pouco. Ou, alternativamente, segure o sentimento de mesmice típica. Por favor, degusta bem esse eu te amo que eu te entrego. Tenta entender a via crúcis que eu andei pra chegar até aqui, desde a acepção dessa sensação até a decisão de te escrever. Foi infernal, meu amor.

Não sei quando começou. A sensação que fica é que sempre esteve lá, desde o primeiro momento em que te conheci, mas isso é bobagem dos românticos. Amor é sorrateiro, e quando se faz conhecido é porque pula em cima de ti e te subjulga.

Sei apenas que, em algum dado momento, te realizei como meu. Te quis, te precisei, te clamei. A necessidade do amor é doentiamente patológica. Me ocupava por horas pensando em ti, no teu corpo, na tua voz, na tua boca, nas tuas mãos, nos teus trejeitos, nos teus pelos, na tua letra, no teu toque, no teu bocejo. Na tua calmaria. No porto seguro do teu peito. Na vontade de dormir contigo, e sentir tua respiração. Na maneira que o mundo tomava ares de brisa marítima ao teu lado. Na sensação de entardecer ensolarado que tu me dava. Tu é minha paz em um rapaz.

O amor que eu quero contigo é aquele tranquilo e com sabor de fruta mordida. Mas a paixão que eu sinto é ampla demais, forte demais. Quero beber o teu sangue e sentir ele e o meu unidos em um só rio, caudaloso e devastador. Quero ser esse cometa e deixar minha própria chama me consumir, até que eu vire poeira estelar. Quero te amar jupiterianamente até que o sol se apague. Então voaremos unidos na escuridão, nossas solidões se completando. Baby, você me deixa insano.

Mas sei que nada disso é possível.

Tu não me ama dessa forma, porque é impossível me amar dessa forma. Sou uma forma moldada pelas minhas experiências com o mundo. Desta forma, criei uma silhueta imaginária que se encaixaria perfeitamente nas minhas concavidades e convexidades. Um dia tu chegou e, voilá!, a silhueta estava perfeitamente preenchida. Um belo dum milagre. Completamente implausível. Completamente impossível, também, porque tu não existe.

Sim, amor, tu não passa do fruto de uma solidão demente. De um garoto vazio e sem emoções da vida concreta, que precisou colocar toda a vontade de amar numa carta. Foi como eu disse.

Baby, você me deixa insano.


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