Nina é uma meNina muito normal.
Nina acorda, vai para o colégio, presta atenção na aula, conversa com as amigas no intervalo, vai pra casa come, estuda, descansa, dorme.
Nina não canta, dança ou sapateia. Nina é uma garota normal.
Mas como todas as garotas normais, Nina também é uma meNina muito fora do normal.
Como todas as meNinas, Nina é imperfeita. Mas sua imperfeição é mais aparente do que as das outras.
Nina é negra. Ser negra não é uma imperfeição, mas pouquíssimas modelos das revistas são negras.
Nina é gorda. Ser gorda não é uma imperfeição, mas nenhuma modelo das revistas é gorda.
Mas Nina é muito, muito mais do negra e gorda. Infelizmente, as pessoas leem revistas demais, então pra elas essas duas coisas bastam.
Também dão crédito, pensam em como Nina é estudiosa, apesar dela também ser muito mais que isso.
Mas pensam que, por Nina não ser uma modelo e ser estudiosa demais, ela nunca vai arranjar um homem.
Também pensam que Nina precisa de um homem pra ser feliz. Que todas as meNinas precisam de um homem para serem felizes.
E, como as outras garotas, Nina começou a acreditar nisso.
Nina tem um coração muito grande, por isso ela sofre de uma condição rara chamada platonismo crônico.
Numa daquelas coincidências espaço-temporais tão fantasticamente absurdas que devem ser apontadas, Chico Buarque descreveu Nina em três versos em uma música:
Nina diz que, embora nova
Por amores já chorou que nem viúva
Mas acabou, esqueceu
Claro que Nina também é muito mais que isso, mas Nina também é tão isso que o autor precisou colocar a música.
Pois Nina já sofreu muito por paixões, mas realmente. Acabou, esqueceu.
Nina já teve muita melancolia no coração. Às vezes ainda tem.
Nina tinha uma mãe muito engraçadinha. Assim como ela, era gorda e negra, e fofoqueira. Também tinha uma voz grossa e fanha característica. Me dizem que a mãe da Nina ajudava ela a seguir em frente, a enfrentar a vida de cara. Porque ela conhecia as dores da nina. Mas ela não deixava a filha desistir, continuava empurrando ela pra frente, vamos lá Nina, a vida é assim, a gente é feia assim e todo mundo só vê isso, vamos lá, tem que estudar, tem que arrumar o cabelo, tem que apressar o passo, ir pro colégio, a felicidade não espera.
Mas a mãe de Nina não pode mais empurrar ela. Porque morreu, desapareceu da Terra. Deixou pra trás uma nina de 16 anos pra enfrentar o mundo. O mundo cruel. O mundo cheio de pena.
Nina faltou um dia de aula só. Depois continuou indo, teve que começar a empurrar a si mesma. Para as amigas, apenas a notícia seca. Sem lágrimas, sem lamentações. Nina nunca gostou de se confessar pros outros.
Por essas e outras, Nina já tomou muito mais porrada da vida do que outras pessoas da sua idade. Guardou sua miséria humana pra si, chorou um segundo dilúvio atrás de portas fechadas. Mas não parou de andar.
Porque, apesar de ser muito mais além disso, Nina tem muita resiliência. Jovem como é, já criou uma casca grossa pra aguentar os golpes do mundo. Porque Nina é a verdade. Ela tem tantas coisas "bonitas" e "feias", e não tem vergonha de mostrá-las. Nina é a verdade.
Nina diz que, embora nova
Por dores da vida já chorou que nem viúva
Mas acabou, esqueceu
Nina não é mais a garota melancólica. Não me arrisco a dizer que ela é feliz. Mas está bem. Ainda tem momentos tristes, mas o mais importante é que anda pra frente sozinha, coisa que muita gente não consegue.
E por mais que as pessoas que compram revistas de modelos discordem, digo que acho Nina bonita. E quando sorri, quando mostra o rosto, quando mostra sua verdade, Nina é linda.
Nina nasceu em 1994. Um borrão preto que perolou a vida dos pais. Nasceu com a marca de parto difícil, trazendo consigo a gordura da mãe e um futuro difícil, dificílimo. Em 2006 ingressou no Colégio Militar. Pesava 87 kg. Nina era tímida, mas grande demais para não ser notada. Nina sempre foi notada. Nina nunca foi vista. Quando disse que queria ser presidente da república, chamaram-na de hipopótamo. Quando chorou no vestiário, lembrou da mãe: ‘’quer chorar, chora, mas quando voltar, volta mais forte; a gente é feia, mas é gente, Nina, a gente não deve nada a ninguém; quer ser presidente, sê presidente, só não tenhas vergonha de ti mesma, apressa o passo e não deixa ninguém te empurrar’’. Em 2011 a mãe de Nina morreu, de companhia feminina só restaram as gatas de estimação. (Nina sempre gostou de felinos porque são belos que não se importam com beleza. Esfregam-se em qualquer dorso, desde que seja bom. E Nina, mesmo sem ter consciência disso, é boa). Nina faltou um dia de aula, só 24 horinhas, e chorou e engoliu o choro e ouviu a mãe e foi ao colégio e aguentou. Aguentou. Nina desde então estanca o pé e aguenta. Pesa 92 kg hoje em dia, emagreceu comparado ao que pesava no ensino médio, mas só uma ou duas pessoas perceberam isso. Ninguém nunca olha para ela porque dá vergonha ser tão fraco e reclamar de tão pouco. Nina deu o primeiro beijo faz um mês e talvez não esteja entendendo direito se foi acidental ou proposital - nunca recebeu esse tipo de carinho de um garoto. Quando ama, ama em devaneio, ama desvairadamente, delicada como uma florzinha pequena. E tantas foram as vezes que esse amor terno recebeu pancadas, que Nina criou casco equino sem nunca ter precisado coicear pessoa alguma. Mas quando Nina deixa de amar, ela deixa. Pára de sofrer e esquece. Um dia Nina vai conseguir amar a si mesma, tal qual como sua mãe. E nesse dia Nina vai ser vista por alguém. E ela vai saber que merece isso. Porque Nina foi a melhor pessoa que já pisou naquele colégio. Porque Nina é uma boa meNina.
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