- Será feita a abertura da urna do tempo. Os nomes dos ex-alunos que escreveram para o projeto serão chamados um por um, e suas respectivas cartas serão devolvidas.
No meio da multidão de gente velha e ansiosa, um senhor meio calvo e sério parecia estar completamente alheio aos seus arredores. Usava um blazer cor-de-chumbo, uma camisa branca, calças jeans e tênis All-Star, que haviam sido muito famosos na sua época. Do seu lado, uma amiga septuagenária animosamente lhe falou:
- Rodrigues, você não está excitado? Logo logo vão lhe entregar a sua cartinha escrita em 2012! Não é nostálgico pra você?
O velho grunhiu um "eh" indiferente, que sempre fora a sua resposta para perguntas típicas que não captavam a sua verdadeira atenção. Nem tinha certeza sobre o porquê do seu comparecimento. Tinha viajado de São Paulo até Porto Alegre, acordara cedo e precisara se enfiar nessa montura de sexa/septua/octagenários inquietos, embaixo do sol quente; tudo isso só para receber um documento velho que escrevera em sua adolescência! Que grande perda de tempo.
- Já estão nos Ds, daqui a pouco vão te chamar! Por que você está tão desanimado? - disse a velha carioca. "Sempre insistindo nesse 'você'", pensou Demarco (odiava seu primeiro nome). Não compreendia a razão de haver trazido a sua colega de trabalho. Talvez simplesmente não quisesse passar por todo esse processo inútil sozinho. Mesmo assim, a amiga estava começando a lhe irritar com toda essa animação desnecessária.
A loirinha do palanque, já enjoada de entregar tantos papéis poeirentos a velhos que se debulhavam em lágrimas, pegou o próximo envelope e leu no microfone, com um pouco de irritação na voz:
- Demarco Rodrigues!
Era ele. Desvencilhando-se da massa idosa que o cercava, atravessou o pátio em direção à menininha parada ao lado da urna. Cumprimentou-lhe com um sorriso falso e pegou a sua carta. Enquanto andava para as arcadas à procura de um lugar para sentar, reconheceu na face do papel a sua caligrafia desajeitada e cursiva. Como havia melhorado o jeito de escrever quando entrara na faculdade! Sentou-se em um banco e abriu o documento.
Como havia escrito em uma folha branca simples, as linhas estavam meio tortas. Havia uns desenhinhos meio esdrúxulos no final do papel. Muitos deles eram pornográficos. Nossa, como ele desenhava mal! E aquele curso artístico que tomara alguns anos depois de se formar não ajudou muito. Ele enfim começou a ler.
A carta devia ter ao total umas 400 palavras de duração. Sempre fora mais sucinto em seus textos, se comparado aos seus outros amigos que escreviam. Iniciava dando um olá ao seu eu do futuro, e falando que não tinha absoluta certeza se algum dia ele seria capaz de ler isso. A típica enrolação de linguiça inicial que ele sempre usava quando começava a escrever algo. Seguia falando do seu dia-a-dia na época. Estava no 2° ano, e levava toda a matéria escolar na boa. Sempre fora o tipo "preguiçoso, porém inteligente", e suas notas cheias de picos e vales demonstravam isso. Seu eu-lírico do passado então perguntou:
- "e tu ainda mantém contato com o pessoal? O Línio, a Glória, a Bianca, a Dani, o Paulo e todo o resto?"
Não via aquelas pessoas havia 40 anos. Seus pensamentos foram atropelados por um caminhão de memórias. Lembrou de todas as experiências que tivera com aquelas pessoas, as risadas, as brigas, as descobertas, as promessas.Estariam vivos ainda? Se estivessem, provavelmente não moravam mais em Porto Alegre. Não, pessoas especiais como aquelas tem o triste e maravilhoso hábito de se espalhar pelo mundo, se tornando indistinguíveis da palha social que os cerca. Demarco suspirou, melancólico. Definitivamente nunca mais os veria. Bateu um arrependimento doloroso. Se apenas, antes de se mudar, tivesse guardado um telefone, um endereço, um email...
Prosseguiu a leitura. Agora sua versão de 15 anos lhe contava sobre seus problemas emocionais, suas inseguranças. O velho se lembrou de como levara anos de psicoterapia para expurgar todos aqueles demônios, e de como, ao final, eles não passavam de problemas simples, intensificados pela nossa necessidade interna de complicar a vida. É claro que em suas angústias pessoas havia um pequenino prazer escondido, uma satisfação em se ver como uma pessoa de camadas, em se ter mais profundidade do que a que o olho nu pode perceber.
O guri agora falava sobre carreira. Queria ser um cineasta/escritor. Queria se formar em psicologia primeiro, pra estudar a mente humana. O velho soltou uma risadinha amarga. Largara a faculdade de psicologia no segundo semestre. Como escritor, havia publicado um livro. Se vendera 100 cópias, era muito. Como diretor, dirigira dois curtas, ambos fracassos completos. Em todos os seus sonhos, havia falhado pateticamente, assim como os seus medos lhe previniram. Escrevia pra um jornal relativamente conhecido em São Paulo. O salário era minimamente decente. Concorrera a um pequeno prêmio uma vez. Mas como tudo em que tentava a sorte, falhara.
O eu-pretérito começou a falar da família. Ele rangeu os dentes. Contava como tinha um convívio tumultuoso com todos, e no final prometia melhorar o relacionamento com os familiares depois que saísse de casa.
Não falava com o irmão havia anos. A irmã morrera de uma doença rara. O pai morrera há anos, e a mãe também, depois, de infelicidade. Não tinha interesse algum em reatar contato com os parentes mais distantes.
No final da carta, Demarco perguntava a si mesmo como ele andava, se estava feliz, se tinha aproveitado a vida. Falava para o velho que não tivesse medo de experimentar coisas novas, em detrimento da idade.
O senhor suspirou profundamente. Afinal, o que infernos podia fazer agora? A grande perda de tempo que a sua vida fora acabava de ser involuntariamente exposta aos seus olhos. Conseguira não satisfazer quase todos os pontos levantados pela carta. Não sentia qualquer tipo de prazer há milênios. Tinha nojo do próprio corpo. Não possuía nenhuma amizade verdadeira. Nunca amara de verdade. Sua vivência tivera gosto de pão velho e puro, simplesmente.
No dia seguinte, chegou ao ponto alto da sua experiência humana ao pular de um prédio de nove andares.
A carta devia ter ao total umas 400 palavras de duração. Sempre fora mais sucinto em seus textos, se comparado aos seus outros amigos que escreviam. Iniciava dando um olá ao seu eu do futuro, e falando que não tinha absoluta certeza se algum dia ele seria capaz de ler isso. A típica enrolação de linguiça inicial que ele sempre usava quando começava a escrever algo. Seguia falando do seu dia-a-dia na época. Estava no 2° ano, e levava toda a matéria escolar na boa. Sempre fora o tipo "preguiçoso, porém inteligente", e suas notas cheias de picos e vales demonstravam isso. Seu eu-lírico do passado então perguntou:
- "e tu ainda mantém contato com o pessoal? O Línio, a Glória, a Bianca, a Dani, o Paulo e todo o resto?"
Não via aquelas pessoas havia 40 anos. Seus pensamentos foram atropelados por um caminhão de memórias. Lembrou de todas as experiências que tivera com aquelas pessoas, as risadas, as brigas, as descobertas, as promessas.Estariam vivos ainda? Se estivessem, provavelmente não moravam mais em Porto Alegre. Não, pessoas especiais como aquelas tem o triste e maravilhoso hábito de se espalhar pelo mundo, se tornando indistinguíveis da palha social que os cerca. Demarco suspirou, melancólico. Definitivamente nunca mais os veria. Bateu um arrependimento doloroso. Se apenas, antes de se mudar, tivesse guardado um telefone, um endereço, um email...
Prosseguiu a leitura. Agora sua versão de 15 anos lhe contava sobre seus problemas emocionais, suas inseguranças. O velho se lembrou de como levara anos de psicoterapia para expurgar todos aqueles demônios, e de como, ao final, eles não passavam de problemas simples, intensificados pela nossa necessidade interna de complicar a vida. É claro que em suas angústias pessoas havia um pequenino prazer escondido, uma satisfação em se ver como uma pessoa de camadas, em se ter mais profundidade do que a que o olho nu pode perceber.
O guri agora falava sobre carreira. Queria ser um cineasta/escritor. Queria se formar em psicologia primeiro, pra estudar a mente humana. O velho soltou uma risadinha amarga. Largara a faculdade de psicologia no segundo semestre. Como escritor, havia publicado um livro. Se vendera 100 cópias, era muito. Como diretor, dirigira dois curtas, ambos fracassos completos. Em todos os seus sonhos, havia falhado pateticamente, assim como os seus medos lhe previniram. Escrevia pra um jornal relativamente conhecido em São Paulo. O salário era minimamente decente. Concorrera a um pequeno prêmio uma vez. Mas como tudo em que tentava a sorte, falhara.
O eu-pretérito começou a falar da família. Ele rangeu os dentes. Contava como tinha um convívio tumultuoso com todos, e no final prometia melhorar o relacionamento com os familiares depois que saísse de casa.
Não falava com o irmão havia anos. A irmã morrera de uma doença rara. O pai morrera há anos, e a mãe também, depois, de infelicidade. Não tinha interesse algum em reatar contato com os parentes mais distantes.
No final da carta, Demarco perguntava a si mesmo como ele andava, se estava feliz, se tinha aproveitado a vida. Falava para o velho que não tivesse medo de experimentar coisas novas, em detrimento da idade.
O senhor suspirou profundamente. Afinal, o que infernos podia fazer agora? A grande perda de tempo que a sua vida fora acabava de ser involuntariamente exposta aos seus olhos. Conseguira não satisfazer quase todos os pontos levantados pela carta. Não sentia qualquer tipo de prazer há milênios. Tinha nojo do próprio corpo. Não possuía nenhuma amizade verdadeira. Nunca amara de verdade. Sua vivência tivera gosto de pão velho e puro, simplesmente.
No dia seguinte, chegou ao ponto alto da sua experiência humana ao pular de um prédio de nove andares.
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