terça-feira, 25 de abril de 2017

Sobre fumar em casa

Acendo outro cigarro
Logo após apagar o primeiro
Pois só consigo existir em relação a algum outro
Não aprendi a ser sozinho, em quietude
Ao mesmo tempo criei ranço
De gastar boca e ouvido
Nos meus momentos de absoluta sovinhez
Em conversas de queijo suíço
E de fazer amigos por garantia
Não quero me tornar aquele
Que conversa com outro simplesmente
Para ter um diálogo consigo mesmo
Por isso tropeço e caio
No vão agonizante
Entre o diluir-se em outros
E o mergulhar em si próprio
Lá faço o meu ninho
Pois ainda me apavoro com a liberdade
Também chamada de
Plena solitude.

Pelas Calças

Eu tenho nojo de parnasianos
Porque são a elite da poesia
Representando tudo o que esmagou
Os que pintavam com a lama

Eu não confio naqueles
Que conseguem se desnudar
Sem um segundo de hesitação

Eu odeio:
Majestades trajadas de mantos fétidos
Hienas que comem o que “é só carniça”
E narcisos que me pedem pra ficar em frente ao sol

E admito que as vezes tenho repulsa pela humanidade inteira
E logo em seguida por mim mesmo
Por ser esse protótipo de rebelde
Que nunca pensou antes de fazer, porque não fazia
Que ia de encontro apenas com o próprio reflexo


Que nunca fechou o punho
Em outras ocasiões além dos momentos
Nos quais usava todas as forças do meu corpo
Pra não deixar que o sumo amargo
Que preenche tudo em mim
Vazasse pelas minhas calças.

Por uma arfada de ar fresco

Acho que estou sempre tomado pela ânsia
De agarrar o tudo antes que ele me escape
Por isso a água me fascina e me agoniza
Quando escorre por entre meus dedos
E talvez por isso eu goste de fumar
E ter a fumaça dentro de mim antes dela
Escapar da minha boca e se dissolver no ar
Também ando muito rápido indo para bares
Louco para chegar a tempo de ouvir a piada
Que vai ser relembrada e rida meses após o fato
Ou a briga entre amigos que vai gerar um silêncio sufocante
Por isso sou escravo do tempo
Que corre a minha volta e me profere ofensas
E nunca precisa parar para tomar fôlego
Sempre sentindo o futuro gotejando na minha nuca
E esfregando meus olhos enquanto persigo uma decisão
Por isso por vezes só posso parar e deitar
E deixar o mundo seguir seu redemoinho ao meu redor
Porque tem vezes que a gente só cansa.

Após a Ressaca

Em meio a brisas do passado,
Lembrei de criaturas como tu
Que ainda se fazem pássaros dentro de mar abissal
(Ninguém nunca lhe ensinou a nadar
E riam de ti quando tu batia os braços na água desesperado)
Porque eu também me afogava assim,
Com uma ardência anestesiada por dentro

Talvez se a gente virasse peixe
Afinal com essa sensação no estômago
De um anzol puxando as tripas
Todas as vezes que balbuciamos com alguém
Faria sentido, não?

Foi tudo uns tropeços disfarçados de sapateado
E aquele murro toda vez que corríamos pra alguém
E tentávamos vomitar tudo
e recebíamos de volta um
“não entendi.”

E as piadas, e as mordidas,
E os olhares, e os assédios,
E as vezes que a gente queria cantar,
E riam da nossa voz,
E a gente costurava a garganta.

Mas sou mais velho que tu,
Já aprendi a nadar
Então quero lhe fornecer estas arfadas:
Tu vai pensar que teus sentimentos são falsos,
Mas isso não existe.
Presta atenção na tua pele,
Em como ela reage ao vento de cada dia.

Um dia vai chegar
Quando tu também estiver envolto
Nessas brisas do passado,
E tu vai descobrir um amargo perfeito
Que vai te locomover pra sempre
E ninguém nunca vai tirar ele de ti

E tu vai aprender a respeitar a tua sujeira
E descobrir a dor de ter sido mutilado
E descobrir o júbilo
De ter sido plenamente errado.

terça-feira, 23 de setembro de 2014

Sobre flores e segredos

Posso estar terrivelmente enganado, mas suponho que tu exales talvez um ar orquidiano. A orquídea, de certa forma, é a planta mais agradável para se adotar como a tua predileta. Ela é convencionalmente bela, mas também tem o poder de manter em si ares exóticos. Em conversas reservadas, todas as abelhas ponderam entre si quais segredos obscuros a orquídea deve guardar no correr da sua seiva. Suspeito que, se ela pudesse mover-se e articular palavras, se manteria sempre instrospectivíssima, assim como tu. Também desconfio que, se algum dia todos os seus mistérios escorressem de si, por um corte desajeitado porém certeiro do botânico, os habitantes do jardim forjariam um cerne exasperado em coletivo, enquanto que por dentro exclamariam “mas era isso?”. Ou então verdadeiramente se surpreenderiam, mas ao cabo de alguns dias estariam novamente absortos em suas fofocas cotidianas sobre pólens e pétalas. Francamente, não posso prometer-te a certeza de que minha resposta seria diferente. Entretanto, te perguntaria minhas perguntas por quiçá algo além da vã curiosidade, por uma vontade de te conhecer mesmo. A orquídea provavelmente retém questionamentos simples, o que não a faz menos ampla. Pois é o seu aroma que a torna fascinante. Sua aura é absolutamente limpa.

Mas agora devo te perguntar: achas tu que as orquídeas cruzam com lírios?

segunda-feira, 23 de junho de 2014

Às distrações

A sombra do suicídio anda pairando sobre a minha cabeça nos últimos tempos.
Não sei o que fazer.
Uma parte minha achou, ingenuamente, que as coisas haviam mudado, que tudo agora seria luz e futuro.
Não, isso é mentira. Eu não fui estúpido.
Mas acho que eu realmente pensei que tinha saído do pântano.
Não, porque o pântano mora no meu coração vazio.
E eu caí em outro buraco, e me entreguei a outra paixão icárica, e virei a cabeça para longe da responsabilidade para com a minha própria vida.
Para com a minha própria felicidade.
Agora tô afogando no pântano de novo.
Meu corpo é coberto de chagas.
Meu futuro é invisível.
Sou imprestável.
Não faço nada mais.
Não escrevo, não faço planos, não me exercito.
Confiei naquelas cápsulas verde-com-branco, depois azul-com-branco, depois comprimidos, pra resolver tudo.
E não resolvi nada de novo.
E estou aqui de novo.
E, de novo, parece que a única saída plausível é pegar a pistola na gaveta do meu pai e meter uma bala no meio dos meus miolos.
E, de novo, sei que nunca vou conseguir fazer isso.
Só me resta o arrasto agora.
E as pequenas distrações.

quarta-feira, 2 de abril de 2014

Empurrei

Aperto as mãos torço os dedos prendo a respiração tudo por uma angústia louca de não ter feito certo, de não ter sido agradável interessante instigante o suficiente, quero sempre buscar uma absolução que nunca vem, e então me torno um bicho abissal gemendo se contorcendo peidando morrendo pulando e correndo, temendo a verdade de quem eu sou. Sou inconstante demais, ora quero me enterrar no chão e dormir pra sempre, ora quero ser de tudo e de todos. Mas sou os dois. E sendo os dois, não posso ser nenhum. Quero morrer. Quero viver. Quero sobreviver. Quero nada, pois é a mesma coisa que querer tudo. E por isso não posso jamais ter a minha própria unidade. E então grito.  Mas só sou assim porque preciso das pessoas. Até mesmo escrevendo esta patética tentativa de desabafarte imagino se um outro me apreciaria ao lê-la. Porque eu sou os outros. Eu não sei em que ponto eu deixei de ser eu e virei os outros. Mas viver pelos outros não é viver. É parasitar, é juntar migalhas de existência e fazer uma farofa pobre e estranha, nem um miserável pode se alimentar dela. Porra, já tô me exaustando escrevendo isto. Tudo me cansa. Mas eu não quero mais ficar empacando, tendo burstos milisegundais pra depois deitar no abismo de novo. Não, eu quero jorrar. Quero sempre jorrar. Mas eu não consigo. E por isso eu não consigo achar valor em mim mesmo. Não consigo nem mesmo me propôr um tema, alguma identidade que for. Esse desabafarte já é outro. E logo será outro de novo. Ser mutável é um inferno, mas eu sou um mutável escasso ainda, fazer um pra mim me dá o cansaço de fazer dez.

Eu nunca soube o que fazer.

Eu não sei nem se tudo isso esparramado aqui é verdade. Em algum plano tem que ser, mas é uma verdade muito dentra, é como uma miragem. Não sei se o que sinto são miragens ou gritos abafados. Mas pelo menos eu fiz algo com isso. É um consolo.

Porque eu nunca tenho vitórias, só consolos.

quinta-feira, 31 de outubro de 2013

O meu trovão

Eu gritei “CALA A BOCA” e a minha voz saiu como nunca tinha saído antes. E eu percebi nesse momento uma parcela de toda a força que se escondia dentro de mim, a mesma força que existia atrás das palavras “nunca” e “eu te amo”. E por um segundo espacial eu tava perdido na realidade, porque eu nunca pensei que uma coisa daquelas poderia sair de mim. Aquilo não era da natureza que eu me atribuía, que os outros me atribuíam. Só descobri nesse instante todo o poder que as minhas palavras possuíam, só aos 15 anos.  Eu lembro como eu era um impotente antes disso, como eu me sentia completamente patético aos 14 anos. Porque eu me odiava, eu me repugnava. Eu era fraco, e eu me sentia fraco, ao mesmo tempo que os outros à minha volta descobriam a sua própria força naquela época (eu demorei mais, porque por ser adiantado, eu sempre fui atrasado). Por isso eu também era inferior. Eu era baixo, eu não tinha barba, nem músculos, nem a voz de um homem. Isso. O que eu mais odiava em mim era a minha voz. Primeiro por influência externa, depois por teimosia minha. Eu só queria o que todo mundo queria, eu queria ter força, eu queria ser forte. De tal forma que as palavras nascidas do meu âmago fossem um soco no estômago dos outros, de tal forma que elas não fossem outra repetição não entusiástica de uma fórmula humana. De tal forma que eu não me sentisse mais um lixo humano. Porque essa parecia ser a minha sina, e eu nunca conseguiria deixar de ser um medíocre com uma vida medíocre. Mas isso não passava de uma mentira, e de um produto da necessidade alheia de te fazer se sentir inútil. Porque se isso fosse verdade, eu não sentiria esse fluxo nos meus pulmões; esse tambor tribal no meu peito; essa vibração no meu estômago vazio; esse pulsão na minha virilha. Eu tinha vida dentro de mim, e enquanto isso fosse verdade eu jamais poderia estar preso ao destino de um fracasso. Eu gritei pra que o mundo se calasse e nisso eu descobri o rugido de um trovão no meu núcleo. Mas ainda não me livrei completamente do vício da derrota. Há vezes em que o mundo parece morto, e eu me sinto morto, e eu me sinto vazio. Mas isso não passa de um intervalo da minha continuidade. Eu não quero e não vou me permitir viver em tempos mortos, não sabendo que essa pulsação existe em mim. Eu não sou e não devo ser nada abaixo da soma dos meus desejos ao mundo.

(E eu NUNCA vou deixar vocês tirarem isso de mim. Eu preferiria morrer.)

Não posso deixar todo esse conhecimento se erodir com o vento. Eu preciso lembrar, sempre. Lembrar e sentir, sentir com a mesma força atrás das palavras “nunca” e “eu te amo”, e todas as outras infinitas palavras que se guardam em mim, ou que me guardam nelas. Lembra do teu trovão, Mordecai.

terça-feira, 20 de agosto de 2013

Carta a uma Silhueta

Preciso falar contigo.

Sei que perdemos contato. Sei que ando te ignorando. Pode ficar bravo comigo, não vou me magoar. Mas por favor, me ouça. Tenho algo importante que preciso te contar. Mas é uma coisa difícil pra se falar, por isso te escrevo. Mesmo via palavras digitadas, ainda não estou certo se devo fazer isso ou não. Porque é um assunto que sempre prometi para mim mesmo que eu nunca usaria num texto meu, nem que fosse para outra pessoa, como este.

Entende: desde que eu me conheço por gente, a originalidade era uma qualidade que eu prezava demais. Acho que eu sempre soube que minha vocação residiria no meio criativo. E pra mim, se eu vou concentrar minhas forças na criação de algo que me cativa, eu quero que as pessoas entendam o quanto aquele assunto significa pra mim. Não só que entendam, mas que sintam no âmago. E o pior feedback que eu poderia receber seria ter feito algo sem graça, bege e rotineiro, sem grandes atrativos. Pra mim, é preferível ser muito ruim do que médio. O comum me aterroriza.

E o que me tortura é que eu ando me achando tão normal. Pior que ficar nos extremos é isso, ficar ilhado no meio-termo. Nem nas estrelas nem no mar abissal, só a areia. E se não é médio, é ruim. Mas não muito ruim. E sabe, tantas vezes eu tentei colocar a minha alma em alguma coisa, e tantas vezes mais tarde eu me achei ridículo... Mas isso só acontece porque eu sou todo errado. Nunca faço as coisas na hora certa, me esqueço, me distraio, e o que sai depois não é o mesmo. E acho que isso já tá acontecendo com esse texto. Se eu tivesse parado e escrito ele quando me deu vontade, eu não teria essa angústia que eu to sentindo agora. 

Então, compreende que eu não sou mestre nem na arte de me expressar. E se já estou errando agora, não devo me arriscar a continuar. O meu pior pesadelo seria estragar esse sentimento, porque é intenso demais, puro demais pra eu o perder. E infelizmente, ele também já foi banalizado pelo mundo. Não quero que tu leia isso só com os olhos, e que pense nas outras milhares de vezes que tu já leu isso antes, em outros lugares. Preciso que essa sensação que me assombra te atinja em cheio, como um balaço no estômago, quando tu fica desesperado porque não consegue respirar. Não sei se tenho a capacidade pra produzir isso em alguém. Mas...

Mas agora já é tarde demais. Eu fui muito longe nisto, preciso terminar, já não é mais uma escolha. E se eu me recusar a falar, a coisa vai explodir da minha boca. Já posso a sentir subindo pelo meu esôfago, se aproximando da glote. Se eu deixá-la sair involuntariamente, por conta própria, o resultado poderá ser desastroso. Não, eu preciso consentir, eu preciso fazer isto direito. Já está na minha boca. Ela tem gosto de palpitações, de coração acelerado. Pois bem, chega de suspiros. Aqui vai.

Eu te amo.

Pare. Por favor, segure todos os pensamentos e a surpresa que te assaltaram ao ler isso e só pare um pouco. Ou, alternativamente, segure o sentimento de mesmice típica. Por favor, degusta bem esse eu te amo que eu te entrego. Tenta entender a via crúcis que eu andei pra chegar até aqui, desde a acepção dessa sensação até a decisão de te escrever. Foi infernal, meu amor.

Não sei quando começou. A sensação que fica é que sempre esteve lá, desde o primeiro momento em que te conheci, mas isso é bobagem dos românticos. Amor é sorrateiro, e quando se faz conhecido é porque pula em cima de ti e te subjulga.

Sei apenas que, em algum dado momento, te realizei como meu. Te quis, te precisei, te clamei. A necessidade do amor é doentiamente patológica. Me ocupava por horas pensando em ti, no teu corpo, na tua voz, na tua boca, nas tuas mãos, nos teus trejeitos, nos teus pelos, na tua letra, no teu toque, no teu bocejo. Na tua calmaria. No porto seguro do teu peito. Na vontade de dormir contigo, e sentir tua respiração. Na maneira que o mundo tomava ares de brisa marítima ao teu lado. Na sensação de entardecer ensolarado que tu me dava. Tu é minha paz em um rapaz.

O amor que eu quero contigo é aquele tranquilo e com sabor de fruta mordida. Mas a paixão que eu sinto é ampla demais, forte demais. Quero beber o teu sangue e sentir ele e o meu unidos em um só rio, caudaloso e devastador. Quero ser esse cometa e deixar minha própria chama me consumir, até que eu vire poeira estelar. Quero te amar jupiterianamente até que o sol se apague. Então voaremos unidos na escuridão, nossas solidões se completando. Baby, você me deixa insano.

Mas sei que nada disso é possível.

Tu não me ama dessa forma, porque é impossível me amar dessa forma. Sou uma forma moldada pelas minhas experiências com o mundo. Desta forma, criei uma silhueta imaginária que se encaixaria perfeitamente nas minhas concavidades e convexidades. Um dia tu chegou e, voilá!, a silhueta estava perfeitamente preenchida. Um belo dum milagre. Completamente implausível. Completamente impossível, também, porque tu não existe.

Sim, amor, tu não passa do fruto de uma solidão demente. De um garoto vazio e sem emoções da vida concreta, que precisou colocar toda a vontade de amar numa carta. Foi como eu disse.

Baby, você me deixa insano.


quarta-feira, 7 de agosto de 2013

Nina

Nina é uma meNina muito normal.
Nina acorda, vai para o colégio, presta atenção na aula, conversa com as amigas no intervalo, vai pra casa come, estuda, descansa, dorme.
Nina não canta, dança ou sapateia. Nina é uma garota normal.
Mas como todas as garotas normais, Nina também é uma meNina muito fora do normal.
Como todas as meNinas, Nina é imperfeita. Mas sua imperfeição é mais aparente do que as das outras.
Nina é negra. Ser negra não é uma imperfeição, mas pouquíssimas modelos das revistas são negras.
Nina é gorda. Ser gorda não é uma imperfeição, mas nenhuma modelo das revistas é gorda.
Mas Nina é muito, muito mais do negra e gorda. Infelizmente, as pessoas leem revistas demais, então pra elas essas duas coisas bastam.
Também dão crédito, pensam em como Nina é estudiosa, apesar dela também ser muito mais que isso.
Mas pensam que, por Nina não ser uma modelo e ser estudiosa demais, ela nunca vai arranjar um homem.
Também pensam que Nina precisa de um homem pra ser feliz. Que todas as meNinas precisam de um homem para serem felizes.
E, como as outras garotas, Nina começou a acreditar nisso.
Nina tem um coração muito grande, por isso ela sofre de uma condição rara chamada platonismo crônico.
Numa daquelas coincidências espaço-temporais tão fantasticamente absurdas que devem ser apontadas, Chico Buarque descreveu Nina em três versos em uma música:

Nina diz que, embora nova
Por amores já chorou que nem viúva
Mas acabou, esqueceu

Claro que Nina também é muito mais que isso, mas Nina também é tão isso que o autor precisou colocar a música.
Pois Nina já sofreu muito por paixões, mas realmente. Acabou, esqueceu.
Nina já teve muita melancolia no coração. Às vezes ainda tem.
Nina tinha uma mãe muito engraçadinha. Assim como ela, era gorda e negra, e fofoqueira. Também tinha uma voz grossa e fanha característica. Me dizem que a mãe da Nina ajudava ela a seguir em frente, a enfrentar a vida de cara. Porque ela conhecia as dores da nina. Mas ela não deixava a filha desistir, continuava empurrando ela pra frente, vamos lá Nina, a vida é assim, a gente é feia assim e todo mundo só vê isso, vamos lá, tem que estudar, tem que arrumar o cabelo, tem que apressar o passo, ir pro colégio, a felicidade não espera.
Mas a mãe de Nina não pode mais empurrar ela. Porque morreu, desapareceu da Terra. Deixou pra trás uma nina de 16 anos pra enfrentar o mundo. O mundo cruel. O mundo cheio de pena.
Nina faltou um dia de aula só. Depois continuou indo, teve que começar a empurrar a si mesma. Para as amigas, apenas a notícia seca. Sem lágrimas, sem lamentações. Nina nunca gostou de se confessar pros outros.
Por essas e outras, Nina já tomou muito mais porrada da vida do que outras pessoas da sua idade. Guardou sua miséria humana pra si, chorou um segundo dilúvio atrás de portas fechadas. Mas não parou de andar.
Porque, apesar de ser muito mais além disso, Nina tem muita resiliência. Jovem como é, já criou uma casca grossa pra aguentar os golpes do mundo. Porque Nina é a verdade. Ela tem tantas coisas "bonitas" e "feias", e não tem vergonha de mostrá-las. Nina é a verdade.

Nina diz que, embora nova
Por dores da vida já chorou que nem viúva
Mas acabou, esqueceu

Nina não é mais a garota melancólica. Não me arrisco a dizer que ela é feliz. Mas está bem. Ainda tem momentos tristes, mas o mais importante é que anda pra frente sozinha, coisa que muita gente não consegue.
E por mais que as pessoas que compram revistas de modelos discordem, digo que acho Nina bonita. E quando sorri, quando mostra o rosto, quando mostra sua verdade, Nina é linda.

domingo, 14 de julho de 2013

Construa-se.

- O que é isto?
- É um momento da sua amplidão.
- Como assim?
- Você entenderá um dia.
- Quem é você?
- Eu sou uma possibilidade que adquiriu consciência.
- Onde estamos?
- No tudo.
- O que é o tudo?
- É a sua vida.
- O que é a minha vida?
- É você.
- O que é este fluxo que eu sinto?
- É o ar nos seus pulmões.
- E este rugido dentro de mim?
- É a fome.
- E esta pulsação na minha virilha?
- É o seu tesão.
- Por que sinto essas coisas?
- São os seus pulsões primários, são a sobrevivência dentro de você. Você sempre os teve.
- Mas por que só os sinto agora?
- Porque você acaba de nascer.
- Mas eu já não havia nascido antes?
- As pessoas nascem a cada segundo.
- Então porque eu nasci mais agora do que antes?
- Assim como eu, você foi uma possibilidade que adquiriu consciência. Somos seres similares nesse aspecto.
- O que é um segundo?
- É uma parte do tempo.
- O que é o tempo?
- É a morte sob um microscópio.
- Mas eu não havia nascido do tempo? Eu nasci da morte?
- Exato. A morte de uma vida acarreta na incepção de outra.
- Como uma oscilação?
- Sim. As oscilações do pêndulo do tempo.
- Minha existência é uma luz piscando? Um elétron pulando camadas?
- Assim como a de todos os Outros.
- Há outros?
- Sim, mas seu ser se diluirá Neles.
- Mas eu não sou formado pelas minhas interações com eles, assim como eles são formados por mim?
- Correto. Entretanto, seu crescimento excessivamente focado no externo enfraqueceu seu ego. O Vazio, presente em todos, é maior em você. Por isso, o contato com Outros é como um ácido corrosivo, ele o queima e sublima e o espalha para as vidas Deles.
- Como posso combater meu próprio Vazio, então?
- Entre-se. No seu Vazio, você poderá observar os contornos da sua alma. Dessa forma, você terá a fórmula da substância que forma  sua essência.
- E então?
- Construa-se.
- Mas... Você não faz parte dos outros?
- Não.
- Quem É você?
- Sou o sopro.
- E eu?
-

domingo, 23 de junho de 2013

Saúde mental é eu olhar uma foto de um amigo bonito, me comparar a ele e pensar "eu sou repugnante e devia morrer".

sexta-feira, 21 de junho de 2013

A Vida Primária de D.C. ou Antroporragia

Minha vida costumava ser simples e alegre. Eu bebia das cores do mundo e sentia que poderia fazer várias coisas e ir a vários lugares. Aquela felicidade gostosa de estar à orla de algo incrível, e segurar o passo pra sentir o momento. Eu recheava a minha cabeça com desenhos animados e brinquedos. Os momentos mais simplórios eram bons para mim.

Mas então entrei no Ateneu. E a malícia do mundo me prendeu num canto de uma sala, com um chapéu de burro na cabeça. Mas será que mereci? Um porco-espinho tem culpa de ferir ao se aproximar dos outros? Éramos crianças, ninguém sabia que algumas brincadeiras e apelidos levam anos de psicoterapia para serem exorcizados. Por isso, não os incrimino. E não havia o que temer: eu ainda possuía a minha felicidade. Mas o triste é que eu não sabia disso. Porque a prova mais concreta da existência de algo é a sua destruição.

Um dia morri. Atravessei a rua e abri os olhos: era a realidade. Ou seria a morte? Do seu casaco negro, puxou um revolver. Disparou 13 vezes, mas só o último acertou; a lâmina da pistola era velha e cega. Tomei um tiro da realidade. Caí no chão sangrando minhas cores, meus sabores, minhas emoções, minhas sensações. Toda a minha humanidade se esvaiu pelo asfalto. A ambulância chegou, mas era tarde: eu morrera de antroporragia.

Mas o meu invólucro não morrera (e voilá! aqui estou). E eu levantei e segui caminhando a terra. Mas nada mudaria o fato de que eu havia me esvaziado da minha condição humana. Eu perdera todos os meus aspectos que me diferenciavam do animal neutro e estoico. Era como se eu houvesse chegado ao estado mais primário da vida, aquele quase morto, pulsante, cinza, sem gosto e sem som. Era a vida primária, a vida primária segundo G.H. Sim, G.H., eu entendi, eu compreendi a tua incompreensão.

quarta-feira, 22 de maio de 2013

Gratisfaction

Satisfação genuína: ter barba, acordar num dia ensolarado com neve, brincar com o filho/irmão mais novo, conversar cara a cara com a minha paixão platônica. Estas residem apenas nos meus sonhos.
Satisfação superficial: conversar com os colegas, se masturbar, comer, gastar tempo em redes sociais. Estas fazem parte do dia-a-dia.
Satisfação catártica: se abrir no show de talentos, gritar com gente idiota. Estas são raras, mas fazem parte do real.

[A satisfação superficial me decepciona, então eu procuro prazer na satisfação catártica, entretanto esta não contém a verdadeira felicidade. A satisfação genuína existe apenas no além-do-real, então como alcançá-la na minha vida?]

sábado, 4 de maio de 2013

De birra

- Vamos Dimi, precisamos ir a aquele piquenique na Redenção.
- NÃO. - exclama a criança interior.
- Por que não?
- Eu não quero me rodear daquelas pessoas de novo!
- Por que não? São nossos amigos e colegas!
- Eu não quero, é chato, é ruim!
- Mas por quê?
- EU. NÃO. QUERO. Eu não quero ter que ficar ao redor das mesmas pessoas, ouvindo as mesmas conversas, as mesmas expressões passadas, as mesmas reações ao mesmo assunto. Estou CANSADO de ver pessoas mais bonitas e mais cativantes do que eu namorando e tendo sucesso e satisfação sexual e popularidade rasa e me ignorando e sendo felizes, enquanto eu me arrasto no mesmo círculo infindável de ócio e insatisfação pessoal, desprezo próprio e miséria. CHEGA, EU NÃO SOU OBRIGADO, TUDO O QUE EU QUERO É ENTRAR NUM LIVRO DE FANTASIA E FUGIR DESSA REALIDADE FEDORENTA.
- Tu sabe que essa raiva é apenas passageira, que em cinco minutos tu vai esquecer de todos esses sentimentos internos, e vai se distrair com o chorume social que os outros dispensam na tua boca, animado para chamar a atenção para si mesmo e tentar conquistar o charme e o respeito dos outros, ignorando as partes idiotas funcionais que sempre aparecem saindo da boca cheia de MERDA deles. No fundo, tu nem sente muitas dessas coisas, só racionaliza elas.
- Eu não posso continuar vivendo assim, empurrando a vida com a barriga! O que que eu faço? COMO EU SAIO DISSO? EU ESTOU ACORRENTADO A ESSA SAMSARA INFERNAL, POR FAVOR ME AJUDE, EU NÃO QUERO APODRECER AQUI DENTRO ENQUANTO FAÇO CARAS E BOCAS PROS OUTROS, POR FAVOR ME TIRA DAQUI E ME MOSTRA AO MUNDO!
- Bah não dá, cheguei ao piquenique, tenho que contar a piada genial que eu bolei no ônibus. TCHAU!

sexta-feira, 19 de abril de 2013

Ode aos odiáveis

Um "vá à merda" ao ator feliz que insiste em exibir sua luz para todos os idiotas fúteis que o aplaudem
Um "vai te foder" ao belo e melancólico que aspira a ares de Álvares de Azevedo
E joga fora os homens que seu corpo perfeito coloca às palmas de sua mão
Um "lambe meu cu" à amiga de cabelos revoltosos que tem mais profundidade que o Mar Atlântico
E quase se afoga ao mergulhar na sua alma perturbada
Um "seu filho da puta" ao pobre sonhador que vive na fantasia idealizada e consegue cagar pras estúpidas regras do mundo à sua volta
Um "sua vaca execrável" à garota Monroe que viajou o Brasil inteiro, mas ainda se perde na própria insegurança
Um "danem-se vocês todos" para os personagens supracitados
Cujas literaturas individuais superam facilmente a minha em todos os possíveis quesitos
Um "morra de uma vez" ao odiável irmão, cuja existência só veio para dificultar as outras a sua volta
Um "odeio-te mais que tudo" ao Ateneu de regulamento e hipocrisia intragáveis
Um "gostaria que tu não existisse" ao velho pai que insuportavelmente sufoca, critica e ordena
Um "vai tomar no cu" ao patriarcado e ao machismo, ambos cânceres sociais asquerosos
Um "seus biltres imbecis" àqueles que, pela humilhação, fizeram eu odiar minha voz e meu eu
Um "enfiem o dedo na bunda" aos repulsivos esnobes que me presentearam com o escárnio e o silêncio blasé injustificado
Um "aprendam a ensinar" aos inaptos professores que preparam para a universidade, mas não para a vida
Um "deixem de ser tão cabaços" aos estúpidos colegas, que vivem da superficialidade social
Um "virem gente" às crianças adultas que se deixam ser pisadas pelos outros
Um "queimem no inferno" aos políticos incompetentes e corruptos
Um "senta no meu pau" ao suposto Deus, que em sua infinita sabedoria deixa a raça humana sofrer por prazo indefinido
Um "entrem logo em extinção" à nossa detestável humanidade
E todo o meu ódio aos reis e às hienas.

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E um "vê se cresce" a mim mesmo, que sabe que boa parte das mensagens acima não são honestas, e sabe que só fez isto pela frustração inacabável de ser um animal repulsivo, desprezível e não amável.

quarta-feira, 17 de abril de 2013

Eu tinha começado a escrever um post desabafo quando deletei tudo sem querer. E só depois que eu apaguei a aba que fui ver que a coisa poderia ter sido desfeita com um simples ctrl z. 30 pontos para Sagitarionória.

Futuro

Os alunos estavam em forma no pátio, torrando sob o sol matinal. Atrás dos pinos, os idosos e idosas se amontoavam desorganizadamente, esperando com avidez a hora em que seus nomes seriam chamados. Ao lado do palanque cheio de velhos generais e coronéis, além do comandante do colégio, uma garotinha loira e magra se reaproximou do microfone e falou:
- Será feita a abertura da urna do tempo. Os nomes dos ex-alunos que escreveram para o projeto serão chamados um por um, e suas respectivas cartas serão devolvidas.

No meio da multidão de gente velha e ansiosa, um senhor meio calvo e sério parecia estar completamente alheio aos seus arredores. Usava um blazer cor-de-chumbo, uma camisa branca, calças jeans e tênis All-Star, que haviam sido muito famosos na sua época. Do seu lado, uma amiga septuagenária animosamente lhe falou:
- Rodrigues, você não está excitado? Logo logo vão lhe entregar a sua cartinha escrita em 2012! Não é nostálgico pra você?
O velho grunhiu um "eh" indiferente, que sempre fora a sua resposta para perguntas típicas que não captavam a sua verdadeira atenção. Nem tinha certeza sobre o porquê do seu comparecimento. Tinha viajado de São Paulo até Porto Alegre, acordara cedo e precisara se enfiar nessa montura de sexa/septua/octagenários inquietos, embaixo do sol quente; tudo isso só para receber um documento velho que escrevera em sua adolescência! Que grande perda de tempo.

- Já estão nos Ds, daqui a pouco vão te chamar! Por que você está tão desanimado? - disse a velha carioca. "Sempre insistindo nesse 'você'", pensou Demarco (odiava seu primeiro nome). Não compreendia a razão de haver trazido a sua colega de trabalho. Talvez simplesmente não quisesse passar por todo esse processo inútil sozinho. Mesmo assim, a amiga estava começando a lhe irritar com toda essa animação desnecessária.

A loirinha do palanque, já enjoada de entregar tantos papéis poeirentos a velhos que se debulhavam em lágrimas, pegou o próximo envelope e leu no microfone, com um pouco de irritação na voz:
- Demarco Rodrigues!

Era ele. Desvencilhando-se da massa idosa que o cercava, atravessou o pátio em direção à menininha parada ao lado da urna. Cumprimentou-lhe com um sorriso falso e pegou a sua carta. Enquanto andava para as arcadas à procura de um lugar para sentar, reconheceu na face do papel a sua caligrafia desajeitada e cursiva. Como havia melhorado o jeito de escrever quando entrara na faculdade! Sentou-se em um banco e abriu o documento.

Como havia escrito em uma folha branca simples, as linhas estavam meio tortas. Havia uns desenhinhos meio esdrúxulos no final do papel. Muitos deles eram pornográficos. Nossa, como ele desenhava mal! E aquele curso artístico que tomara alguns anos depois de se formar não ajudou muito. Ele enfim começou a ler.

A carta devia ter ao total umas 400 palavras de duração. Sempre fora mais sucinto em seus textos, se comparado aos seus outros amigos que escreviam. Iniciava dando um olá ao seu eu do futuro, e falando que não tinha absoluta certeza se algum dia ele seria capaz de ler isso. A típica enrolação de linguiça inicial que ele sempre usava quando começava a escrever algo. Seguia falando do seu dia-a-dia na época. Estava no 2° ano, e levava toda a matéria escolar na boa. Sempre fora o tipo "preguiçoso, porém inteligente", e suas notas cheias de picos e vales demonstravam isso. Seu eu-lírico do passado então perguntou:
- "e tu ainda mantém contato com o pessoal? O Línio, a Glória, a Bianca, a Dani, o Paulo e todo o resto?"

Não via aquelas pessoas havia 40 anos. Seus pensamentos foram atropelados por um caminhão de memórias. Lembrou de todas as experiências que tivera com aquelas pessoas, as risadas, as brigas, as descobertas, as promessas.Estariam vivos ainda? Se estivessem, provavelmente não moravam mais em Porto Alegre. Não, pessoas especiais como aquelas tem o triste e maravilhoso hábito de se espalhar pelo mundo, se tornando indistinguíveis da palha social que os cerca. Demarco suspirou, melancólico. Definitivamente nunca mais os veria. Bateu um arrependimento doloroso. Se apenas, antes de se mudar, tivesse guardado um telefone, um endereço, um email...

Prosseguiu a leitura. Agora sua versão de 15 anos lhe contava sobre seus problemas emocionais, suas inseguranças. O velho se lembrou de como levara anos de psicoterapia para expurgar todos aqueles demônios, e de como, ao final, eles não passavam de problemas simples, intensificados pela nossa necessidade interna de complicar a vida. É claro que em suas angústias pessoas havia um pequenino prazer escondido, uma satisfação em se ver como uma pessoa de camadas, em se ter mais profundidade do que a que o olho nu pode perceber.

O guri agora falava sobre carreira. Queria ser um cineasta/escritor. Queria se formar em psicologia primeiro, pra estudar a mente humana. O velho soltou uma risadinha amarga. Largara a faculdade de psicologia no segundo semestre. Como escritor, havia publicado um livro. Se vendera 100 cópias, era muito. Como diretor, dirigira dois curtas, ambos fracassos completos. Em todos os seus sonhos, havia falhado pateticamente, assim como os seus medos lhe previniram. Escrevia pra um jornal relativamente conhecido em São Paulo. O salário era minimamente decente. Concorrera a um pequeno prêmio uma vez. Mas como tudo em que tentava a sorte, falhara.

O eu-pretérito começou a falar da família. Ele rangeu os dentes. Contava como tinha um convívio tumultuoso com todos, e no final prometia melhorar o relacionamento com os familiares depois que saísse de casa.

Não falava com o irmão havia anos. A irmã morrera de uma doença rara. O pai morrera há anos, e a mãe também, depois, de infelicidade. Não tinha interesse algum em reatar contato com os parentes mais distantes.

No final da carta, Demarco perguntava a si mesmo como ele andava, se estava feliz, se tinha aproveitado a vida. Falava para o velho que não tivesse medo de experimentar coisas novas, em detrimento da idade.

O senhor suspirou profundamente. Afinal, o que infernos podia fazer agora? A grande perda de tempo que a sua vida fora acabava de ser involuntariamente exposta aos seus olhos. Conseguira não satisfazer quase todos os pontos levantados pela carta. Não sentia qualquer tipo de prazer há milênios. Tinha nojo do próprio corpo. Não possuía nenhuma amizade verdadeira. Nunca amara de verdade. Sua vivência tivera gosto de pão velho e puro, simplesmente.

No dia seguinte, chegou ao ponto alto da sua experiência humana ao pular de um prédio de nove andares.

segunda-feira, 11 de março de 2013

La Dame de la Guerre

Christine Anarchie nasceu numa tarde chuvosa em 6 de março de 1995, num pequeno hospital não-identificado em Porto Alegre. Seus berros histéricos após a primeira golfada de ar denotavam desde já a vontade de ser ouvida. Não há muitos dados sobre a sua infância. Aos 11 anos, foi matriculada no Ateneu. Foi lá aonde sabores como a dor, a humilhação e o ódio, antes inéditos no seu cardápio rotineiro, tornaram-se seu feijão com arroz diário. E por um curto período inicial de tempo, a pequena Christine engoliu este prato como quem engole brasa quente sem reclamar. Porém, aos 13 anos, o assalto hormonal da sua primeira menstruação lhe roubou sua paciência e sua tahamul - a capacidade de suportar. E o sangue de sua menarca misturou-se ao sangue de seus carrascos.

O processo criminal contra a pré-adolescente foi assunto das notícias por muito tempo. Foi jogada em um reformatório. Fugiu na noite do primeiro dia. Aderiu ao grupo de centenas de crianças moradoras de rua. Nesse meio, sua única amizade eram os cães vira-latas, e desse relacionamento entre espécies vieram seus ideais ecológicos. Destes, veio o veganismo desenfreado. Deste, la violence.


Aos 14 anos, juntou-se ao seu primeiro grupo ecoterrorista com muita animosidade. Entretanto, logo se decepcionou com as atividades curriculares deste: abrir grades de canis com alicates, pichar muros e quebrar as janelas de restaurantes fast-food? Isto não traria a atenção do grande público para a sua mensagem, pois aos olhos da mídia eles não passavam de vândalos. Decepcionada e determinada a realmente elevar a causa a níveis internacionais, ela se desligou do grupo e começou a agir solo. Conseguiu seu primeiro grande sucesso de audiência alguns meses depois, ao invadir uma fábrica de salsichas de uma companhia alimentar muito conhecida e adicionar fezes infectadas aos misturadores de carne. Dentro de uma gaveta da escrivaninha do diretor da fábrica, deixou um bilhete com as palavras "Bandine Capone esteve aqui."

A contaminação massiva que seguiu o incidente foi o suficiente para o seu novo pseudônimo ser citado na reportagem do jornal local.

Esta momentânea fama foi o currículo perfeito para a agora conhecida como Bandine ser aceita na organização ecoterrorista mais proeminente do Brasil, a ALFACE (Aliança Libertária da Força Animal Contra os Ecopoluidores). Sua facilidade em adquirir conhecimentos químicos avançados fez dela uma exímia bombardeira, responsável pela destruição de dúzias de sedes farmacêuticas para companhias que faziam testes em animais. Não tardou em ascender para líder da Aliança e em levar seus atos extremistas ao reconhecimento internacional.


Agora com os recursos e popularidade desejados, Capone contatou dezenas de organizações ecológicas extremistas com uma proposta revolucionária. Assim se formou a CIEB, Coalizão Internacional de Ecologia Bélica. Ela finalmente estava realizando o objetivo que tivera desde o início: declarar guerra aos destruidores do planeta. Sob seu comando, a CIEB realizou inúmeros atentados contra qualquer organização que em seus métodos ameaçasse o bem-estar natural. Seu nome logo encabeçava a lista dos 10 mais procurados do FBI e da Interpol. E tudo isto antes de completar 18 anos.


E então chegamos ao ponto mais recente desta recapitulação: às 21h da quarta-feira, no seu aniversário que marcava a passagem para a maioridade, Bandine invadiu o Teatro St. Judas, no centro da sua cidade-natal, e fez de reféns a platéia e os atores da peça que estava sendo apresentada. Entre o elenco encontrava-se o proprietário do local e astro da apresentação, o artista de renome internacional Lord Fafa, e seu colega de trabalho não menos famoso, Mordecai de Flaudepan. Capone os manteve sentados no palco sob a mira de sua automática enquanto comandava a operação. Sua justificativa para a invasão foi de que o teatro havia sido construído sobre um antigo parque que deveria ter sido considerado patrimônio municipal. Após 4 horas de negociação com a polícia, um helicóptero adornado com a sigla da CIEB resgatou os terroristas e escapou para a sua base de operações, até agora tentando ser achada por especialistas de rastreamento, sem sucesso.


Mordecai de Flaudepan preferiu não se pronunciar frente aos repórteres, como é usual de sua conduta pública. Já Lord Fafa, conhecido por suas atitudes mais que polêmicas, declarou que nutria certa admiração pela ecoterrorista. Quando questionado, isto foi o que o artista teve a dizer:

- "Nas horas que passamos lá como reféns, tive a oportunidade de conversar com a minha captora. Ela não hesitou em expressar seu desprezo em relação a mim, por causa da construção do St. Judas. Disse que achava compreensível, e que de certa forma admirava a obstinação dela para com seus ideais. Não considero apropriadas as maneiras de que ela se utiliza para propagar suas ideias, mas é no mínimo impressionante a maneira com que esta dama bélica, esta dame de la guerre, se dedica às causas em que acredita."

- texto originalmente escrito como cartão de aniversário para a minha colega literária Bruna Christine, dona do http://vidasamargas.wordpress.com/